25 de dez de 2008

ESCOLHAS (CONTO)

Ela tomou a decisão assim que saiu do bar. Iria se separar. Um “O que levou João a não aparecer?” incomodava seus pensamentos. Enquanto caminhava para o ponto de taxi, se protegendo da garoa fina que teimava em cair, ia lembrando de como tudo começara. Conversas displicentes no MSN que passaram para conhecimento mútuo e no final pura afinidade. Esperava por uma pessoa como aquela por toda a sua vida e mesmo assim ele resolvera não aparecer. “Será que ele cansou de esperar?” e “Safado mentiroso”, iam e vinham na sua cabeça.

Tudo bem que era casada, mas nunca escondera isso dele. Desde o começo ele sabia do quanto era difícil seu relacionamento e da impossibilidade de separação . Não se separaria por algo que não fosse tão sólido quanto seu casamento. Convivência muito difícil que passou do amor para pura amizade. Não amava mais Marcos e isso já havia tempos. Seu gênio, que era muito interessante no começo, começara a irritá-la cada vez mais. Aquela dependência irritante que a transformara em mãe ao invés de mulher. Agüentara a separação cada vez maior dos seus amigos em troca dos amigos dele. Agüentara a perda do sua habilidade criativa em função da pura picuinha que ele costumava armar. Mas perder seu primeiro amante era demais. Fazia tempo que ela desistira de esperar alguém interessante aparecer e esse alguém por algum motivo havia desistido dela. “Pode ser o trânsito” e “Deve ter acontecido algo” apareciam de repente em sua cabeça, mas em seguida eram trocados pelo rancor que sentia pelo marido. Era ele o motivo da desistência de João, tinha certeza.

“Afinal”, pensou, "quem não se cansaria?”. Foram 2 meses até conseguir confiar e duas semanas para ter coragem de marcar um encontro. De repente percebeu, e com isso chegou a sorrir, de que ele não era seu amante de fato. Nunca haviam se conhecido pessoalmente. Havia algumas fotos dele no computador e só. Apesar das vezes que se tocou pensando nele, nunca haviam feito sexo. Isso a consolou um pouco. - “pelo menos aquele cachorro não tem o que falar de mim.”- Mesmo nessa situação não conseguia ter raiva de João, ele havia aceso algo que ela já julgara morto. Ele preencheu um quarto vazio em seu intimo. Ela precisava mesmo ouvir o quanto era inteligente e interessante.

Não precisou chamar um taxi, havia um no ponto.

Lembrou do jeito que tudo começou, da admiração aparentemente sincera que ele sentia quando teclou com ela pela primeira vez. Sorriu lembrando de como ele sabia tudo da sua vida no primeiro contato. Ela sempre fora meio que displicente na rede. Escrevia tudo o que vinha na cabeça em blogs e fotologs, mas nunca imaginara que alguém iria juntar os pedaços e descobrir como ela era realmente. Amava João? Isso nem ela mesmo saberia responder.

Ainda tinha um blog. Escrevia pouco, era verdade. Seu marido não dava atenção mesmo. Mas João havia lido todos os seus textos e chegava a acertar o que a havia motivado a escrever. “O que havia dado de errado?” começou a martelar na sua cabeça. Afinal, ele não havia dito que a amava? Não havia dito que esperaria pelo tempo que fosse? Decidiu então não mais confiar em ninguém. Acabaria seu casamento assim que chegasse em casa. A partir de hoje ela teria uma vida nova. João chegou a falar certa vez que ela não teria coragem de se separar. Ela mostraria para ele, aliás, para os dois.Levaria sua vida sem João ou Marcos.

Chegou a pegar o celular, mas reprimiu o desejo de ligar para ele

Foi pensando nisso que o taxi chegou à sua casa.

Subiu as escadas de sua casa e chegou à porta. Botou a chave na fechadura.

Ao abrir a porta deu de cara com Marcos, deitado no seu sofá predileto.

- Onde você estava? – perguntou ele, sem entonação, como sempre fazia. Não que esperasse uma resposta. Simplesmente era a mesma pergunta feita todas as centenas de vezes em que essa mesma cena acontecera.

Ela olhou para ele. Ele não sentiu a leve alteração na sobrancelha, algo imperceptível. Durante um longo segundo ela pesou tudo. E então respondeu:

- Dei um pulo na cidade, amor. - Falou. – Já jantou? Vou fazer algo para nós.



F I M

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25 de dez de 2008

ESCOLHAS (CONTO)

Ela tomou a decisão assim que saiu do bar. Iria se separar. Um “O que levou João a não aparecer?” incomodava seus pensamentos. Enquanto caminhava para o ponto de taxi, se protegendo da garoa fina que teimava em cair, ia lembrando de como tudo começara. Conversas displicentes no MSN que passaram para conhecimento mútuo e no final pura afinidade. Esperava por uma pessoa como aquela por toda a sua vida e mesmo assim ele resolvera não aparecer. “Será que ele cansou de esperar?” e “Safado mentiroso”, iam e vinham na sua cabeça.

Tudo bem que era casada, mas nunca escondera isso dele. Desde o começo ele sabia do quanto era difícil seu relacionamento e da impossibilidade de separação . Não se separaria por algo que não fosse tão sólido quanto seu casamento. Convivência muito difícil que passou do amor para pura amizade. Não amava mais Marcos e isso já havia tempos. Seu gênio, que era muito interessante no começo, começara a irritá-la cada vez mais. Aquela dependência irritante que a transformara em mãe ao invés de mulher. Agüentara a separação cada vez maior dos seus amigos em troca dos amigos dele. Agüentara a perda do sua habilidade criativa em função da pura picuinha que ele costumava armar. Mas perder seu primeiro amante era demais. Fazia tempo que ela desistira de esperar alguém interessante aparecer e esse alguém por algum motivo havia desistido dela. “Pode ser o trânsito” e “Deve ter acontecido algo” apareciam de repente em sua cabeça, mas em seguida eram trocados pelo rancor que sentia pelo marido. Era ele o motivo da desistência de João, tinha certeza.

“Afinal”, pensou, "quem não se cansaria?”. Foram 2 meses até conseguir confiar e duas semanas para ter coragem de marcar um encontro. De repente percebeu, e com isso chegou a sorrir, de que ele não era seu amante de fato. Nunca haviam se conhecido pessoalmente. Havia algumas fotos dele no computador e só. Apesar das vezes que se tocou pensando nele, nunca haviam feito sexo. Isso a consolou um pouco. - “pelo menos aquele cachorro não tem o que falar de mim.”- Mesmo nessa situação não conseguia ter raiva de João, ele havia aceso algo que ela já julgara morto. Ele preencheu um quarto vazio em seu intimo. Ela precisava mesmo ouvir o quanto era inteligente e interessante.

Não precisou chamar um taxi, havia um no ponto.

Lembrou do jeito que tudo começou, da admiração aparentemente sincera que ele sentia quando teclou com ela pela primeira vez. Sorriu lembrando de como ele sabia tudo da sua vida no primeiro contato. Ela sempre fora meio que displicente na rede. Escrevia tudo o que vinha na cabeça em blogs e fotologs, mas nunca imaginara que alguém iria juntar os pedaços e descobrir como ela era realmente. Amava João? Isso nem ela mesmo saberia responder.

Ainda tinha um blog. Escrevia pouco, era verdade. Seu marido não dava atenção mesmo. Mas João havia lido todos os seus textos e chegava a acertar o que a havia motivado a escrever. “O que havia dado de errado?” começou a martelar na sua cabeça. Afinal, ele não havia dito que a amava? Não havia dito que esperaria pelo tempo que fosse? Decidiu então não mais confiar em ninguém. Acabaria seu casamento assim que chegasse em casa. A partir de hoje ela teria uma vida nova. João chegou a falar certa vez que ela não teria coragem de se separar. Ela mostraria para ele, aliás, para os dois.Levaria sua vida sem João ou Marcos.

Chegou a pegar o celular, mas reprimiu o desejo de ligar para ele

Foi pensando nisso que o taxi chegou à sua casa.

Subiu as escadas de sua casa e chegou à porta. Botou a chave na fechadura.

Ao abrir a porta deu de cara com Marcos, deitado no seu sofá predileto.

- Onde você estava? – perguntou ele, sem entonação, como sempre fazia. Não que esperasse uma resposta. Simplesmente era a mesma pergunta feita todas as centenas de vezes em que essa mesma cena acontecera.

Ela olhou para ele. Ele não sentiu a leve alteração na sobrancelha, algo imperceptível. Durante um longo segundo ela pesou tudo. E então respondeu:

- Dei um pulo na cidade, amor. - Falou. – Já jantou? Vou fazer algo para nós.



F I M

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