28 Abril 2007

O LEILÃO DE ANTIGUIDADES DE MADAME LUFFREY - CONTO

Infelizmente não sei de quem é esse argumento, foi me enviado por e-mail, quando descobrir eu darei os devidos créditos. Tentei dar minha visão pessoal da história. Divirtam-se.


O LEILÃO DE ANTIGUIDADES DE MADAME LUFFREY


A noite estava chuvosa. Numa esquina próxima ao famoso hotel Grand Splendore uma figura olha para o relógio. “São 23:35. Quase na hora...”, pensa sem se preocupar com a chuva que teima em cair. Seu nome é Johannes. Aperta firme a alça da bolsa, dentro dela está uma pequena fortuna, todo o dinheiro que a sua pequena ordem conseguiu levantar depois que o Vaticano negou apoio nessa empreitada, e caminha em direção ao hotel. O plano parecia ser fácil, bastaria entrar no hotel, participar de um leilão e arrematar uma pequena peça antiga de origem hindu. A primeira e a segunda parte foram conseguidas sem esforço. Na verdade o convite havia sido enviado ao Prior de sua ordem por um colecionador de relíquias católico, aliás, a carta que seguira junto com o convite foi tema de discussão dos superiores por mais de uma semana. Até aí tudo bem, agora a terceira seria o problema. Não se tratava de uma peça qualquer, mas de uma relíquia muito antiga e valiosa. Segundo informações viriam pessoas do mundo todo para tentar obter tal peça. Um pequeno amuleto cujo nome original havia se perdido com o tempo. Atualmente esse amuleto, único, era chamado de Visão de Naraka. Dizia a lenda que quem o possuísse poderia ver o Inferno. Mas a realidade era outra, e ainda mais aterradora. O possuidor poderia ver e chegar ao Inferno, pois ,seguido de certos rituais, o amuleto poderia abrir uma passagem entre os planos. Claro que tudo isso poderia ser uma lenda, mas a Ordem de São Martheus não estava disposta a correr esse risco.

A primeira coisa que o jovem monge notou foi a grande quantidade de carros que estavam chegando. Todos de luxo. A medida que se aproximava do hotel a chuva foi finalmente passando e as figuras que se amontoavam na entrada puderam fechar os guardas chuvas. Ao olhar contou mais de cinqüenta carros. O que dava mais de duzentas pessoas no leilão. Esperou do lado de fora enquanto os convidados iam entrando aos poucos. A grande maioria gente normal. O que o preocupou foram as auras negras e escarlates. Exatas 25 desde que havia chegado. Essas habilidades, de enxergar e interpretar as auras e algumas outras úteis ou não, havim garantido a ele a importante missão de hoje. Órfão desde criança, fora criado pela ordem desde então, hoje não saberia dizer se seu poder era latente ou se fora aprendido nos anos de clausura. Não importava. O importante era que aquelas auras eram perigosas, e ele teria que tomar todo o cuidado com elas.

Quando todos haviam entrado ele caminhou em direção a porta, passou pelo hall e olhou em volta. Encontrou o que procurava. Uma placa de cor escura onde estava escrito “Salão Royal – esta noite - Leilão de Antiguidades de Madame Luffrey” em letras douradas. Na frente um homem grande, porém comum, recepcionava os convidados. Johannes se aproximou e entregou o seu convite. O homem sorriu e fez um sinal para que ele entrasse. Aura amarela com pontos pretos, possivelmente câncer, aquele homem deveria parar de fumar. Como de costume não comentou nada. Sempre via as doenças nas pessoas e os anos haviam lhe mostrado que elas não queriam saber de nada ruim. Agradeceu e entrou no salão. Ele estava certo. Eram 25 espalhados pelo salão em diversos pontos. Concentrou-se e tentou encontrar um padrão nos lugares das auras. Nada. Eles estavam separados. Fosse qual fosse o motivo cada uma daquelas auras não havia planejado nada com as outras. Eram 3 vampiros, 5 magos menores, 2 magos poderosos e o restante eram humanos de coração negro, possivelmente satanistas. Bucha de canhão nas batalhas espirituais que eram travadas todos os dias, podres desgraçados que acreditavam que os demônios poderiam ajudar. “Coitados, se eles soubessem o que eu sei...”, pensou por um instante. Procurou um lugar no fundo do salão onde poderia ter uma visão bastante privilegiada das ações daqueles 25. Acabou encontrando. Na última fileira, bem no centro havia um lugar. Passou pelas pessoas, todas comuns, da fileira, pegou a tabuleta de lances de cima da cadeira e finalmente sentou. Aquilo que ele queria seria o último objeto a ser leiloado. Nesse meio tempo teria que meditar no que faria caso perdesse nos lances para alguém.

Não demorou muito e exatamente à meia noite as portas do salão foram fechadas e uma senhora idosa caminhou para o palco. Deveria ser a famosa Madame Luffrey. Ela era vistosa e estava muito bem vestida. Naquele palco a idade dela era indefinida, corria o boato que ela deveria ter mais de 100 anos. Ninguém sabia ao certo. O monge sorriu ao pensar que o boato poderia ser verdadeiro.

- Boa noite para todos.- foi falando assim que conseguiu segurar o microfone. – Todos vocês foram convidados para o leilão anual. Eu passo o ano todo correndo o mundo atrás de artigos de colecionadores particulares que, de um jeito ou de outro, possuem peças únicas de temas esotéricos. Os convenço a se desfazerem de parte de suas coleção em troca de uma substancial quantia de dinheiro e trago todas para cá, uma vez por ano. Vamos começar com a caneta tinteiro da famosa Madame Blavatski...

“Essa noite vai ser longa.”, pensou Johannes se mexendo na cadeira. “Serão 30 peças a serem leiloadas nesta noite. Se cada uma for vendida em 5 minutos só sairei daqui por volta das 3” . Não havia dormido durante o dia, havia rezado e se purificado durante todo o tempo. Achou melhor meditar e só despertar depois de umas 2 horas.

Foi o que fez.

Enquanto o jovem monge meditava as peças iam sendo vendidas uma a uma. A cada lance vencedor o recinto ia se esvaziando mais e mais. Depois de 2 horas só haviam umas 40 pessoas no salão. Ao sair do transe Johannes percebeu que de sua fileira só havia ele. Olhou para os demais participantes e notou que todos os 25 iniciais estavam ali. Era mau. Isso queria dizer que estavam lá pelo mesmo motivo que ele. Os lances do Cristal Azul de Saint Germain já estava em 7 milhões de dólares. A próxima peça era o motivo de sua estada neste lugar.

De cima do palco Madame Luffrey continuava a incentivar os interessados.

- Ouvi 7 milhões e meio? 7 milhões dou-lhe uma...- entusiasmava os presentes.

Notou o possível comprador do cristal. Era um famoso cantor de rock. Com certeza ele não sabia o que aquele cristal podia fazer. Johannes lembrou da lenda e tremeu um pouco, mas não estava ali para julgar. Aquele pobre músico teria sua saúde drenada pouco a pouco, dia após dia. Em toda a existência conhecida do cristal nunca o possuidor havia vivido mais que dois anos. “Pena, parecia ser uma pessoa legal.”, pensou consigo. Seus pensamentos foram cortados pelo anúncio do vencedor.

- Dou-lhe 3! Vendido para o cavalheiro número quarenta e sete pela quantia de 7 milhões. – falou a senhora encerrando aquela disputa.

Enquanto o cristal era recolhido para a posterior entrega, o músico ia se retirando e levando consigo uma parte dos convidados remanescentes. Sobraram no salão, além do monge, todas as 25 auras perigosas e cinco humanos normais. Era agora. O amuleto estava sendo levado para o palco. Ele foi colocado em cima do pedestal que se encontrava no centro do palco, ao lado da senhora.

- Muito bem senhores. Todas as senhoras já foram. - completou a madame brincando. Ninguém riu. - Agora o verdadeiro jogo começa. Se vocês ficaram aqui até agora sabem do valor inestimável desta peça. Tratasse da Visão de Naraka, o famoso amuleto milenar hindu. Não vou entrar em detalhes, todos vocês sabem do que se trata. Lance inicial de 10 milhões. Quem dá mais? – completou.

Finalmente o leilão havia iniciado para Johannes.

O plano era ficar quieto e esperar que os lances rareassem, assim teria que enfrentar apenas um interessado. Usaria parte de seu poder para fazer os normais e alguns satanistas desistirem da compra. Os magos e vampiros eram imunes a este dom. Concentrou-se em um por um e, aos poucos, conseguiu que 15 desistissem. Estava ficando tonto, não podia continuar. Sobraram 15 e com esses teria que jogar.

- 14 milhões para o cavalheiro de número 138. – o leilão continuava. Eram 13 agora na disputa. Ele teria que esperar até o momento certo.

- 25 milhões. – quem falava era um homem idoso que até o momento havia ficado quieto.

- Eu ouvi 26 milhões? – perguntava Madame Luffrey, com um sorriso malicioso nos lábios.

- 35 milhões! – respondeu a pessoa que havia dado o primeiro lance.

Os lances foram aumentando cada vez em maior proporção. A cada aumento rsubstancial uma pessoa desistia até que só sobraram 2. Os lances estavam na casa das centenas de milhões. Era agora. Johannes impostou a voz e disse firmemente:

- 2 bilhões de dólares americanos.

- Nossa! Eu ouvi 2 bilhões e 100 mil? – até a famosa leiloeira havia se surpreendido. Se recompôs e então continuou.- Ninguém? 2 bilhões dou-lhe uma...

Pode sentir o ódio do homem de sobretudo preto. Ele havia dado o último lance e não esperava ser batido.

-... Dou-lhe 3! Vendido para o número 28. – decretou a leiloeira entusiasmada.

Após sua vitória Johannes caminhou por entre as cadeiras em direção ao palco. Nesse caso a entrega seria feita no ato, contra pagamento. Quase todos já haviam deixado a salão. Só restaram Madame Luffrey, um empregado e 10 auras pesadas. Entregou sua bolsa para o coletor e após alguns segundos recebeu uma pequena caixa com tampa de vidro com o medalhão encaixado no seu interior. Agradeceu de forma simples e se encaminho em direção a saída do salão.

Estava quase chegando á porta quando ouviu a vós da mulher atrás de si.

- Que palhaçada é essa? Cadê o dinheiro? – gritou a velha nervosamente apontando para ele.

Seu engodo havia sido descoberto. O monge havia acreditado muito nos seus poderes e havia criado uma pequena ilusão de notas de dólares na bolsa. Sua ordem só havia conseguido 100 mil. Arriscou enganar o coletor, pois tinha certeza que ele era um normal. “Estranho Madame Luffrey ter notado.”, pensou antes de ser dominado com violência pelas pessoas na sala. Sabia o que iria acontecer e aceitou seu destino resignado. Todas as pessoas na sala queriam bater nele. E todos conseguiram. Johannes foi espancado até a morte. Um dos dois vampiros quebrou o seu pescoço e só não sugou o seu sangue porque viu o crucifixo que o monge trazia no pescoço e ficou enojado.

- Quem esse imbecil pensava que era. – Madame Luffrey não parecia tão boazinha agora. – Jogue o corpo do miserável num canto e vamos começar novamente. - sentenciou.

Todos voltaram para seus lugares ignorando o corpo caído do jovem monge e o leilão começou novamente.

Ninguém percebeu quando os pulmões de Johannes voltaram a funcionar e seu pescoço voltou para o lugar com um estalo. Em segundos seus ossos foram calcificados de forma perfeita e então ele se levantou. O corpo era do monge. A voz não era mais.

-Quem ele pensava que era? Foi essa a pergunta que você fez seu insignificante? -essa voz era poderosa e parecia preencher todo o ambiente. Em tom inquisidor o monge continuou.

- Eu não podia intervir. Vocês têm o livre arbítrio, eu não. Eu achei mesmo que o monge conseguiria. Dei parte do meu poder para ser usado de forma consciente quando ele ainda era criança para que se algo assim acontecesse ele pudesse resolver sozinho. - continuou tocando no próprio corpo como se quisesse se acostumar com ele.

Na sala ninguém falava nada. A voz era tão amedrontadora que todos estavam paralisados.

- Vocês acharam mesmo que Ele deixaria que possuíssem algo tão poderoso? – perguntou sem aguardar nenhuma resposta. - E você? Pensa que não sei quem é realmente?- agora se dirigindo à leiloeira.

Nessa hora um dos vampiros tomou coragem e pulou em cima do monge. Este apontou um dedo para interceptá-lo e o vampiro foi desintegrado por um raio de luz.

- Idiotas. Todos vocês. Seres medíocres e insignificantes. Esta mulher é só uma casca já morta há muitos anos. Lúcifer só tomou o corpo dela emprestado para conseguir a chave e alguém que abrisse a porta. Teria que encontrar um bando de imbecis prontos pra fazer isso e realmente encontrou. Por terem matado meu hospedeiro eu sentencio vocês todos à morte. Da forma mais lenta possível. – um clarão foi irradiado do seu corpo e começaram a aparecer pústulas por todo o corpo dos presentes. Elas aumentariam até que só sobrasse carne deteriorada. Demoraria uns 10 minutos e doeria muito. Pareceria uma eternidade para eles.

- Quanto a você, Lúcifer. – falou encarando a mulher.

- Eu o que Gabriel? Vai fazer o que? Mandar-me para o inferno? Eu já estou lá. –Começou a rir de forma zombeteira. – Parabéns, não senti sua presença no monge. A ligação de vocês deve sem bem forte. - completou rindo mais alto ainda.

- Claro que não. Não farei nada com você. Com você não. Esqueceu que eu sei que esse artefato torna possível você tomar corpos de pessoas nesse plano. - falava ao mesmo tempo que esmagava com as próprias mãos a peça que Johannes havia vindo buscar. – Boa estadia no seu reino... Que ela seja longa...

- Nãooooooo...- a garganta do que era Madame Luffrey soltou um último grito antes de cair no chão como uma casca. Em segundos foi se deteriorando até que virou pó.

Johannes olhou em volta por uma última vez e viu o que restava daqueles pobres miseráveis. Suas gargantas haviam desaparecido. Agora se contorciam de dor sem poder mais gritar. O processo deveria estar na metade, faltava pouco para acabar. Infelizmente haviam muitos mais desses idiotas perigosos pelo planeta e muitos artefatos que Lúcifer poderia ainda usar. Só que agora era tarde. Seu hospedeiro havia morrido e nenhum de seus poderes poderia mudar isso. Chorou por Johannes. O monge dera a vida por esse plano. E ele nada pode fazer. De repente olhou para cima e as lágrimas secaram.

- Sim Senhor, como quiser. - falou com entusiasmo. Só Ele poderia interceder nesse caso, e isso foi feito.

Correu para fora do prédio, já era dia. Fechou os olhos e caiu desmaiado na calçada. Quando Johannes acordasse se lembraria apenas de parte dessa noite. O bastante para garantir para seus superiores que o amuleto havia sido destruído. Ele havia permitido que Gabriel dividisse aquele corpo com o jovem monge para ajudá-lo. Um dia o monge saberia o que havia acontecido com ele, mas não hoje. Havia muito mal espalhado pelo mundo, muitas batalhas a serem enfrentadas. E os dois fariam tudo isso juntos.

FIM

21 Abril 2007

ALICE - CONTO

ALICE

Demorou um tempo, mas finalmente Alice conseguiu sair do carro. “Graças a Deus não aconteceu nada comigo”, pensava. Foi sorte e tudo aconteceu muito rápido. A chuva chegara de repente e com muita força. O fato de ser noite só piorou a coisa. Deixara para consertar o limpador de para-brisa na próxima semana. Irônico. Nunca fora boa motorista, era verdade, por isso sempre fizera questão de namorar com homens que dirigissem, pena que estava sozinha há muito tempo, tempo demais. O último havia sido Jacques, o jornalista, legal é verdade, mas muito aquém do que ela achava que merecia, e isso já fazia quase um ano.
Pensava nisso enquanto tentava sair do acostamento atravessando os galhos das árvores que haviam sobrado depois do carro passar por entre elas. O carro havia deslizado para fora da estrada bem uns 15 metros. Ela estava ensopada e a escuridão era quase total, se guiava em direção a iluminação da estrada usando os postes como referência. A lua não estava no céu, não que fizesse diferença. A chuva continuava muito forte e as nuvens a cobririam de qualquer forma. Finalmente chegou à estrada. Correu pra baixo de um dos postes de iluminação e, apesar dos olhas marejados pela água que corria por cima deles, começou a prestar atenção em si para ver se estava sangrando em algum lugar. “Incrível”, estava inteira, sem nenhum arranhão ou dor no corpo. Talvez depois, quando a adrenalina fosse embora, sentisse as dores, mas agora, pelo menos, estava tudo bem. Depois que o susto passou e estava começando a amaldiçoar a sua sorte percebeu um pequeno abrigo que deveria servir como parada de ônibus do outro lado da estrada. Não teve dúvidas, correu para lá. Nem precisou olhar para os lados, a estrada estava deserta, sem nenhuma viva alma. Haveria de passar um ônibus mais cedo ou mais tarde. Pelas suas contas deveriam ser, ainda, umas nove horas da noite. Passaria algum, disso tinha certeza, só torcia para que não demorasse muito. Voltaria para Santa Cruz, ligaria para um guincho e pediria que viessem buscar seu carro, que nem estava todo pago ainda. Não, antes disso tomaria um banho. “Hummm, banho... Bem quente...” pensou com satisfação.
Quando menos esperava, finalmente, apareceu um ônibus. Ela deu sinal, insistentemente, para que parasse. O veiculo acabou passando direto. “Poxa, acho que ele não me viu, droga...”, falou bem alto dessa vez. Teve vontade de falar alguns palavrões, mas se conteve. Ela nunca dizia palavrões e, apesar da situação, não iria começar agora.
A chuva não dava sinal que iria passar. Pensou novamente no banho, este pareceu ainda mais atraente agora. No momento trocaria qualquer coisa por um banho quente. Principalmente agora que o frio estava aumentando. “Ainda bem que é verão, se fosse inverno...” chegou a sentir os efeitos do frio só de pensar nisso. Notou faróis de carro vindo ao longe, sempre tivera por norma nunca aceitar caronas de estranhos, mas não estava em condições de agir normalmente. E talvez este nem parasse. O medo era mútuo, tanto de quem dava quanto de quem pedia uma carona, ainda mais a noite. Por fim arriscou e começou a acenar.
O carro não diminuiu a velocidade, como ela temia. Já estava se acostumando com a idéia de esperar por mais algumas horas quando ouviu uma buzina. Olhos para trás e viu que o carro havia parado mais a frente. Continuava buzinando de forma rítmica e piscava os faros na mesma cadência. Então ela correu em direção ao carro. “Que seja uma mulher ou um velho... Por favor...” orava enquanto corria. Ao chegar perto do carro a porta foi aberta e ela entrou bem rápido, fechando a porta atrás de si.
- Oi minha jovem, que chuva, heim? A senhorita está indo pra onde? – para surpresa, e conforto de Alice, quem acabara de falar era um velhinho, bem simpático por sinal. “Graças a Deus...”, sentindo-se aliviada, então respondeu.
- Muito obrigada por parar senhor. Meu nome é Alice, sofri um acidente...- começou a falar de forma rápida o que fez o velho corta-la.
-Calma minha jovem, eu me chamo Pedro.- falou enquanto oferecia sua mão para cumprimenta-la. – Alice, não é? Belo nome. Vou levá-la para Santa Cruz. Pela sua cara deve ter passado um susto e tanto. Já passou... – falava de uma forma tão natural que tranqüilizou Alice.
- Desculpe senhor, é o nervosismo. - se expressava de forma mais calma dessa vez. - Eu estava indo para Palmital quando perdi o controle do carro. Graças a Deus estou bem. Obrigada pela carona.
- Está vendo como é melhor se acalmar? Tenho uma toalha no banco de trás, pegue-a e se enxugue. – dizia ele enquanto ligava o carro. – Você ia pra Palmital, numa chuva dessas fazer o quê? – perguntou sorrindo.
- Não, quando eu saí de casa não estava chovendo. – se surpreedeu ao perceber que estava sorrindo também. – Eu sou artista plástica e estava indo resolver um problema com algumas peças minhas numa loja da cidade. – completou enquanto se enxugava.
- De noite? Deve ser um baita problema. - começou a rir do que falara, de tal forma que Alice riu também.
- E não é? Foi burrice mesmo. – começou a pensar no que iria resolver, realmente não poderia ter esperado.
- E o senhor? Está viajando pra onde? – foi a vez de Alice perguntar.
- Eu sou representante e estou resolvendo um problema aqui na região. E este tem que ser à noite, mocinha. Antes que a senhorita zombe de mim. -falou em tom de piada.
- Não, isso nunca passou pela minha cabeça. – isso realmente tinha passado pela cabeça dela, mas o velho a impediu antes que ela comentasse.
- Olhe, tem uma lanchonete logo ali. Quer tomar um café? A senhorita está gelada e um café lhe iria fazer bem. – falou apontando para uma lanchonete de posto de combustível.
- Acho que sim, obrigada, senhor. – de repente, passando instintivamente a mão pelo corpo notou que havia esquecido a bolsa e a carteira no carro...
- Tudo bem senhorita, eu pago... - afirmou, como se conseguisse ler seus pensamentos. – só que pare de chamar de senhor. Meu nome é Pedro.
- Só se o senh... Você... Me chamar de Alice. Senhorita é um pouco demais. - deixou escapar para sua surpresa. - Tenho trinta e seis.
-Combinado. – completou o velho sorrindo.
A chuva continuava e o velho estacionou o mais perto possível da lanchonete. Alice abriu a porta do carro e correu diretamente para a porta, usando a toalha para se proteger. “Bem que um café quente faria bem.”, pensou já chegando à porta, com o velho logo atrás.
A lanchonete estava vazia, com exceção do atendente. Este deveria ter pouco mais de 18, ainda não havia saído da fase das espinhas. Quando ia pediu um café ao jovem, Pedro a cortou.
- Alice, vá se sentar que eu pego os cafés.
Ao ouvir isso, Alice nem pensou duas vezes, olhou em volta e escolheu uma mesa cuja cadeira ficava bem atrás da geladeira. “Lá deve estar quente. Se for igual à geladeira lá de casa, ali deve estar um forno.”, pensou consigo já caminhando em direção a ela.
Após se sentar pôde finalmente reparar no seu salvador, não tinha notado antes por causa da pouca iluminação do carro, mas ele parecia conhecido, tinha certeza disso. Aquele rosto lhe era muito familiar. Essa sensação só aumentou enquanto ele seguia em direção à mesa segurando 2 xícaras fumegantes. Ao chegar à mesa Pedro colocou uma xícara na frente dela, que foi imediatamente segurada para esquentar as mãos. Pos a outra em frente à cadeira vazia e finalmente se sentou. Alice não se conteve e acabou perguntando.
- Eu não te conheço de algum lugar?
- Minha jovem, eu sou um velho de 70 anos, todos os velhos se parecem. -respondeu enquanto levava a xícara à boca. Sorveu um pouco e depois continuou.
- Tenho um rosto muito comum. Mas não vamos falar de mim, vamos falar de você. O que fez uma jovem tão bonita sair de casa numa noite chuvosa e pegar a estrada para ir à outra cidade?- completou em tom de brincadeira.
- Olhe, eu já falei que não estava chovendo quando eu saí... – pausou para tomar um gole. -... Se eu soubesse não teria saído, fui para Palmital resolver uns proble...
- Problemas. – Completou o velho, como se estivesse sem paciência de continuar ouvindo.
- Isso você já disse... – foi a vez dele beber. – Não creio que uma situação dessas fizesse você sair de noite, sem contar que não sabe dirigir direito e...
Esses comentários a deixaram surpresa.
- Como você sabe que eu não sei dirigir direito? – havia levantado a voz sem saber o porquê. – E agora me dou conta. Como sabia que eu ia pra Santa Cruz? – continuou cada vez mais alto.
- Calma Alice, me perdoe, eu não quis te aborrecer. Beba seu café. - completou Pedro falando tranquilamente para acalmá-la.
- Vou ao banheiro. – falou Alice levantando-se. Deu uma pausa e depois completou. – Desculpe por ter gritado. Acho que estou nervosa. - deu as costas e seguiu para o banheiro.
Enquanto seguia em direção a porta com o velho símbolo que indicava que aquele espaço era destinado às mulheres, ia pensando no que o velho lhe dissera. Ele estava certo. Não fora uma situação qualquer. Sua vida seria decidida essa noite. Ficara quieta tempo demais. Não tinha 36 e sim 40, embora nunca assumisse por um ridículo capricho feminino. Não tinha mais família, sua mãe havia morrido no ano anterior a deixando só. Há quase um ano não saia com ninguém, filhos então... Parecia ser algo impossível para ela. “O que me fizera ir para outra cidade no meio da noite?”, a resposta era simples. Iria matar. Matar a desgraçada que havia desistido do pedido encomendado. Pedido este que ela tinha demorado mais de dois meses para fazer e que a miserável, num simples telefonema jogou tudo por terra. “Quem ela pensava que era?”, Alice decidira deixar de ficar quieta e finalmente iria dar o troco. Começaria com Janete da galeria e depois o imbecil do Jacques. Que a havia humilhado deixando como lembrança apenas a palavra “frígida” para lembrar do relacionamento. Durante toda a sua vida tinham a feito de boba, parte do motivo era o jeito que sua mãe a criara. Sempre dependente e incapaz de fazer algo sem pedir permissão antes. Estava cheia de ser ninguém. Estava sentindo-se a criatura mais inútil do mundo. Segurou um choro que finalmente não veio e entrou.
Dentro do banheiro se olhou no espelho. Apesar de sujo ele refletia seu reflexo muito bem. Não era bonita, já havia se acostumado com essa idéia, mas também não era feia. Quando se maquiava e se vestia adequadamente era muito paquerada. “Se não fosse a timidez.”, lavou o rosto e começou a decidir o que faria daquele momento em diante.
Não passou mais de cinco minutos no banheiro, gastou todo esse tempo pensando no que iria fazer e chegou a uma simples conclusão. Não mataria mais ninguém. De certa forma foi sorte ter sofrido o acidente, isso a impediu de fazer besteira. Ela iria matar Janete, disso tinha certeza, mas pra que? Pra ser presa? Não era uma assassina profissional, como nos filmes. Teria deixado com certeza alguma pista contra si. Estava sorrindo e se sentindo tão leve. Afinal, ninguém tinha culpa da sua condição, só ela mesma. Ao chegar à mesa sorriu para Pedro.
-Então, está melhor Alice? – perguntou Pedro, estranhamente de forma bem jovial.
- Sim estou, obrigada, muito obrigada por tudo. Está tudo claro agora. Muito obrigada mesmo. – respondeu sorrindo.
- Fico feliz que tenha desistido da idéia de matar alguém. – Pedro falou de repente, fazendo Alice ficar assustada e confusa com a afirmação.
- O que você está dizendo? – perguntou Alice, já sentindo a voz lhe faltando.
- Ora Alice, eu te conheço melhor do que você mesma. Agora fique quieta e deixe-me falar. – assim que Pedro falou isso Alice não sentiu mais vontade nenhuma de se mexer ou falar. Não estava paralisada, simplesmente perdera a vontade de mexer o corpo. Por algum motivo estava tão interessada no que o velho iria falar que ficaria ouvindo por todo o tempo que fosse necessário.
- Alice, querida Alice. Você sabia que sua mãe queria te abortar? Não? Sua mãe nunca lhe contou isso. Eu não deixei que acontecesse. Fiz questão de segurar você no ventre dela até que ela mudasse de idéia. Mesmo com as quantidades cavalares de remédios e chás abortivos tomados eu sempre vigiei você. – tomou o último gole de café, que estranhamente ainda fumegava. Olhou para Alice com ternura, então continuou.
-Vieram as três tentativas de suicídio, nessas vezes você quase conseguiu morrer e eu te deixei aqui porque sabia que me seria útil. Cara Alice eu tenho uma proposta pra te fazer. Como já deve ter percebido eu não sou humana, nem homem eu sou, pra falar a verdade nem mulher. Estou com os homens desde o início dos tempos e agora estou cansada. Preciso de uma substituta e tenho certeza que você serve. Você tem duas opções... - então começou a explicar. Enquanto falava olhou fixamente para os olhos de Alice. Ela devolveu o olhar e então percebeu uma coisa que não havia notado antes. Os olhos dele. Na idade que eles aparentavam. Olhando, sem piscar, nos olhos daquele velho ela enxergou a eternidade.
A explicação durou quase meia hora, realmente Alice não tinha muito o que escolher. Havia morrido no acidente. Seu corpo estava esmagado dentro do carro. Ela era um apenas uma projeção de como se lembrava ser. Não poderia voltar para a sua antiga vida pois não tinha mais uma. Vida, palavra engraçada, pode significar tanto tudo quanto nada. No fim ela aceitou a proposta. Pedro havia lhe desejado boa sorte e passado todo o conhecimento adquirido durante uma infinidade de séculos num simples aperto de mão. Ela não era mais Alice, agora era algo mais. Sentiu pena da raça humana, tão fugaz em sua existência.
Não estava somente ali, mas também em incontáveis lugares por todo o Universo. Estava acompanhando em sua última viagem um pequenino ser que habitava um planeta no outro lado da galáxia. Estava levando no colo uma criança que acabara de morrer no berço. Alentava um coitado que havia se matado e que agora queria saber o motivo da dor não ter passado. Eram bilhões de Alices no outro lado do universo consolando uma raça, agora extinta, que havia perecido junto com seu sol. Era ela em todos esses lugares. E ao mesmo tempo não era. Todos poderiam descansar em seus braços após uma exaustiva vida de sucessos ou fracassos. E no final de tudo, quando a última estrela se apagasse ela estaria ali para apagar a luz e fechar a porta. Ela era a morte.
Num pensamento as suas roupas ficaram secas. Finalmente descobrira de onde conhecia o velho, aliás, a imagem escolhida por ele. Ele era o velho idoso que estampava a marca de aveia que sua mãe preparava todas as manhãs quando Alice era criança. Sorriu pela ironia. A imagem foi escolhida para tranqüilizá-la. Algo que a acalmasse. Dera certo. Alice estava mais viva do que nunca. Sentia que esperara por isso a vida toda.
Calmamente andou em direção ao balcão, na sua mão apareceu uma nota de 50. O rapaz não se lembraria do velho, para todos os efeitos o velho sempre fora Alice. Ele só se lembraria de ter servido os cafés para ela. Ao ficar de frente ao atendente ela lhe ofereceu a nota.
- Fique com o troco. - falou sorrindo para o rapaz.
- Muito obrigado, madame. Volte quando quiser. – respondeu o rapaz já pensando no que faria com a gorjeta.
Elegantemente ela se virou e olhou para ele com ternura. Sorriu e então falou.
- Claro Guilherme, eu voltarei. Pode esperar. – depois de falar saiu pela porta para o ar da noite.
Após a mulher sair Guilherme foi até a porta para trancá-la. Não poderia expulsar uma mulher sozinha numa chuvarada daquelas. Só estava esperando ela sair. “Mulher estranha. Mas muito bonita”, “Como será que ela sabia meu nome?” – estava perdido em pensamentos. O último deles veio antes de apagar as luzes e sair pela porta dos fundos, “Espero que ela volte mesmo.”, e ele tinha certeza, bem lá no fundo, que a veria de novo algum dia.


FIM


Este conto tem dona, o nome dela é ... Alice (rss). A visitante de número 3000 deste Blog. Espero que tenha gostado. Queria escrever um drama, mas só saiu assim. Acho que só sei escrever coisas esquisitas... Abração...

06 Abril 2007

TEM CERTEZA? - CONTO

TEM CERTEZA?

PARIS – 11 DE NOVEMBRO DE 1906

Tarde da noite. O homem está revisando o que, aparentemente, é o aparelho mais importante da sua vida. Trabalhara nele durante meses de forma ininterrupta. Dia após dia e teste após teste, tudo lhe trouxera até este ponto. O teste final seria amanhã, na frente de todo mundo. Provaria a todos que o homem ganharia os céus. Voaria em sua máquina. O dinheiro do prêmio não importava. Todos aqueles que o chamaram de lunático por crer que um aparelho mais pesado que o ar pudesse levantar vôo iriam pagar. Ele os calaria e acabaria por rir em último lugar. Estava muito cansado, estivera na oficina desde quando acordara, e mesmo assim não estava com sono. Estava eufórico. Como conseguiria dormir com toda essa expectativa? Seria medo? Essas perguntas eram caladas assim que apareciam. Ele conseguiria e ninguém poderia impedir, nem seus inimigos que, sabia ele, tinham apostado grandes quantias no seu fracasso. Havia quem tivesse apostado até na sua morte, ficara sabendo para seu espanto. Mas tudo bem. Pegou uma garrafa de dentro do cofre e tomou um grande gole, como se festejasse por antecipação. Tornou a guardar a garrafa e voltou ao trabalho que havia interrompido.

Gastou mais meia hora averiguando pedaço por pedaço. Queria muito voar, mas não queria morrer. Tudo estava bem. Igualzinho ao projeto. Tirou o relógio do bolso e percebeu que já eram três da manhã. Os homens que contratara para vigiar a oficina já deveriam estar lá fora. Tirou o avental, vestiu o terno e pos seu chapéu. Antes de sair olhou para a sua criação pela última vez. Duvidava que os outros dois concorrentes conseguissem vencer essa maravilha da engenharia. Era lindo. O XIV Bis era seu orgulho. Saiu, fechando e trancando a porta atrás de si. Acenou para os três homens que estavam na frente da porta principal da oficina. O seu aparelho só conseguiria sair por ali. Lembrou que teria que passar na casa do relojoeiro para pegar a sua encomenda. Sorriu ao lembrar da cara do homem quando foi encomendado um relógio que pudesse ser fixado no pulso. Pensaria nisso depois. Agora iria para casa tentar dormir.

Após o homem fechar a porta uma figura vestida de preto saiu de trás de uma caixa e olhou em volta. Apesar de escuro ele estava enxergando muito bem graças as suas lentes para visão noturna bi polarizadas. Caminhou até o projeto que se encontrava em cima da mesa e, após tirar um aparelho de seu cinto, bateu uma foto. Em seguida fez alguns ajustes e apertou um botão. De repente uma imagem tridimensional da figura se formou na sua frente, nesta figura apareceram algumas marcas na cor vermelha. Elas eram seu alvo. Caminhou até o protótipo e tentou localizar os locais que estavam marcados na imagem que acabara de ver. Após localizar três destes pontos fez micro fissuras na superfície com seu pequeno laser, pequenos arranhões, quase invisíveis, que após serem expostas a grande tensão se romperiam. Com esses pequenos danos provocados esse aparelho poderia até decolar, mas cairia em seguida. Contente com o trabalho ele caminhou em direção a uma das paredes da oficina e começou a falar, aparentemente para ninguém.

- Trabalho concluído, podem me levar de volta, câmbio! - após falar esta frase, em voz baixa para não ser ouvido, começou a sentir sua pele formigar. Essa não era a sua primeira viagem, mas mesmo assim nunca se acostumara ao fluxo cronal. O formigamento foi aumentando até se tornar quase insuportável. Felizmente toda essa ação não durou mais que alguns segundos. Finalmente o homem, de forma quase mágica, desapareceu.

A oficina, durante alguns instantes, ficou completamente vazia.

Depois de alguns segundos após o desaparecimento do primeiro homem uma outra figura saiu de trás de outra caixa. Ela usava um traje parecido com o que o outro homem usava. Caminhou vagarosamente até a janela e pegou uma pequena caixa que havia deixado ali mais cedo. Apertou um pequeno botão e outra figura se formou a sua frente, desta vez era a gravação tridimensional de tudo que o primeiro homem havia feito. Prestou bastante atenção nas partes que ele havia alterado e, com o que parecia uma pequena caneta, começou a consertar as partes danificadas usando um tipo de adesivo em forma de gel transparente que se solidificava em contato com o ar. O reparo feito ficou invisível. "Talvez alguém com um microscópio e sabendo o que procurar achasse alguma coisa", pensou, "mas acho que aqui não tem nada disso". Deu um sorriso surpreso com o que acabara de pensar.

Não falou com ninguém como a primeira figura fizera, girou o botão que ficava na parte da frente de seu cinto e após um leve zumbido sumiu como o outro homem antes dele.

Nas semanas seguintes o mundo inteiro ficaria sabendo que um homem havia conseguido voar num aparelho com propulsão própria e mais pesado que o ar. Um brasileiro morador de Paris, chamado Alberto Santos Dumont.

PEARL HARBOR – 28 DE AGOSTO DE 2051

- Então, você acha que desta vez deu certo? – perguntou Paul, o homem que acabara de voltar do passado em uma outra tentativa de alterá-lo, falando com um dos outros trinta cientistas que trabalhavam atualmente no Projeto Kronos, o nome dele era Dr. Ortiz, responsável pelo projeto. Eles estavam num antigo porta aviões da marinha americana, aliás, todo o grande navio era uma grande máquina, uma gigantesca máquina do tempo. Todo o corpo de cientistas e engenheiros estavam lá, incomunicáveis há mais de três meses com o objetivo de provar que era possível alterar a história. Afinal eles haviam viajado e interagido com pessoas de épocas diferentes, no começo com zelo e depois de forma desleixada, de certa forma até irresponsável, percebendo que, por mais que se fizessem alterações elas não surtiam efeito na realidade. Para frustração de todos.

- Vamos ver. – respondeu Ortiz, depois completando. - Matematicamente é possível, aliás o impossível é não haver alterações. Vamos começar...

- Atenção, atualização cronal em T menos 10 segundos. – falou no microfone enquanto digitava alguns comandos no computador. - 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1... Zero. - continuou, de forma quase mecânica.

Um zumbido partiu dos geradores do barco, todos os tripulantes sentiram um leve formigamento que durou aproximadamente três segundos, era o tempo necessário para que a realidade fosse alterada pelas mudanças feitas no passado, pelo menos em teoria. Este local, protegido pela bolha temporal, permaneceria imutável para qualquer mudança. Após esse tempo o ruído dos geradores foi diminuindo aos poucos até que cessou por completo.

- Quer ter as honras? – perguntou Ortiz a Paul. Paul pegou o celular e fez uma ligação. Esperou um pouco até que o atenderam. Uma moça com uma voz bastante simpática.

- Alo! – falou de forma natural a moça assim que atendeu ao telefone.

- Oi, somos de KYB 190, a rádio do rock, você foi sorteada para a nossa promoção, responda a pergunta e ganhe um prêmio, isso mesmo, prêmio... Hum hum! Pronta? Quem voou pela primeira vez em um avião? – Havia feito isso antes muitas vezes, mesmo não dando certo anteriormente esta era a parte mais divertida.

- Tem certeza? Muito bem... - desligou o celular de forma brusca. Olhou para Ortiz, que já estava com a ansiedade estampada no rosto.

- E aí? Desta vez deu certo?- falou tão rápido que algumas gotas de baba voaram pela sua boca.

- Não, ainda é Santos Dumont.- após uma breve pausa continuou. – Olha, vamos desistir. Diremos aos militares que é impossível e... – Ortiz não deixou que ele completasse e continuou respondendo.

- É possível. As equações estão certas! – Continuou com a voz ainda mais alta – Temos a tecnologia e os cérebros, só precisamos de outra semana para descobrir onde estamos errando. Na próxima vez dará certo... Escute o que estou dizendo. Nos temos o poder para mudar o mundo. – Falou gritando, da mesma forma que falara nas vezes anteriores. Paul não falou mais nada, ele sabia que não adiantaria discutir.

FERNANDO DE NORONHA – 29 DE MAIO DE 2057

- Como foi? – Perguntou João ao recém chegado que aparecera quase que do nada, só seguido de um zumbido baixo que vinha do seu cinto.

- No que dependeu de mim Santos Dumont ainda é o "pai da aviação". Puta merda, esses caras não desistem?- Falou com nítido rancor.

- Olha. – Continuou João falando para Bruno, que agora já estava sem a mascara e se despindo do traje preto. – Está quase acabando. Historicamente eles tentam mais umas três vezes e desistem. Então o Sr. Abravanel usará parte da sua fortuna para comprar o equipamento destruído pelo Dr. Ortiz depois do acesso de loucura pelo fracasso. Nós reformaremos, corrigiremos algumas falhas e aprimoraremos o equipamento. Você sabe, estava lá. Foi sorte termos errado na primeira montagem e ele ter começado a mostrar passados que pensamos serem falsos. Você lembra de como descobrimos que o passado estava sendo alterado? – perguntou sorrindo.

- Claro, estava junto de você. - respondeu Bruno. - Nem percebíamos que nosso presente era diferente de como deveria ser. Então passamos a corrigir todas as alterações. Ainda bem que está acabando. Você disse mais três. Qual é a próxima? – Perguntou já se acostumando com a idéia de viajar novamente.

Antes de responder ao amigo algumas perguntas, as velhas perguntas, apareciam na cabeça de João. Tantos paradoxos para resolver e perguntas para responder. Uma coisa de cada vez. Quando resolvessem todos os distúrbios causados pelos americanos na linha do tempo começaria o verdadeiro trabalho. "Será que teria alguém que impedisse as nossas mudanças?". Esse pensamento o fez gelar. Como se esquecesse de tudo isso olhou para o amigo e respondeu a sua pergunta com outra.

- Diga rápido. Quem descobriu o Brasil? – Perguntou João sem dar tempo de Bruno raciocinar.

- Pedro Álvares Cabral, claro. – respondeu Bruno não entendendo nada.

- Tem certeza? – Desta vez foi mais que uma pergunta. Bruno percebeu o que seu amigo estava querendo dizer.

- Humm... Agora entendi. Parece que desta vez vou ter mais trabalho que o normal. - Falou Bruno sorrindo e já pensando no trabalhão que teria.

FIM

01 Abril 2007

O ELO MAIS FRACO - CONTO


O ELO MAIS FRACO

Ao chegar do hospital a primeira coisa que Fábio fez foi ligar seu computador. Ele sempre era usado para trabalhar, mas desta vez ele escreveria uma carta, uma carta que ele protelara muito em escrever. Enquanto a máquina era iniciada ele foi à cozinha e preparou um café, ele sempre detestara o próprio café. Nunca aprendera a fazer um, não como Suzana, sua esposa que havia ido embora há uns bons 10 anos. E era pra Suzana que a carta de hoje seria escrita.

Após tomar o café, horrível como sempre, ele se dirigiu ao computador, sentou na cadeira, abriu o word e então começou.

“Oi Zana, esperei muito tempo e finalmente estou com coragem de te escrever. Lucas, nosso filho, teve uma overdose de cocaína e está no hospital. Não precisa ficar alarmada, um amigo dele, o Bruno (você não chegou a conhecer, claro) teve presença de espírito e me ligou ontem de madrugada para avisar que Lucas estava passando mal numa festa de colégio. Eram umas 3 da manhã e demorei um pouco a chegar lá, mesmo sendo a festa no nosso bairro. Quando cheguei lá percebi que ele estava muito mal. O joguei no carro e levei para o hospital. O médico percebeu na hora o que era. Não tive vergonha, no fundo sempre soube que ele puxava fumo, mas nunca imaginei que ele tomava outras drogas. O médico tratou dele e ele está sob observação. Quase morreu, mas graças a Deus eu o levei a tempo. Amor, depois que você foi embora a minha vida com o Luquinha foi barra. Nunca consegui explicar para ele o motivo que fez sua mãe ir embora. Você faz idéia do que é criar um garoto de 7 anos sem uma mãe? Acho que não. Minha mãe fez o que pode, mas não era a mãe dele. E depois que ela morreu as coisas ficaram piores. Fiquei realmente só. Tive que me dividir entre o trabalho e o garoto e acho que foi ai que falhei. Ele sempre teve uma personalidade forte, nesse ponto ele puxou você. Tive que trocar de babá todo ano,ninguém o agüentava muito tempo. Mas eu sempre o amei, o amei tanto que fechei meus olhos para suas faltas. Tinha tanto medo de perde-lo que acabei o perdendo de verdade. Na ânsia de ganhar o seu amor acabei não percebendo que não estava ganhando nada. Você lembra de que quando casamos você dizia que éramos como uma corrente, e que quando nosso filho nascesse ele seria um outro elo? Eu primeiro pensei que o elo mais fraco fosse você, afinal quando você partiu de repente a corrente se partiu. Depois achei que fosse o Lucas, afinal ele não conseguia se adaptar sem sua presença, hoje vejo que o elo mais fraco sou eu. Te perdôo por ter nos abandonado quando mais precisávamos de você. Te perdôo pelos natais sozinho quando, após a ceia, Lucas ia para o quarto e eu para o escritório, juntos mais incrivelmente solitários, nos dois. Pelas reuniões de pais que você perdeu. Perdôo-te por tudo isso. Descobri que é hora de te esquecer pra sempre e lutar, sozinho pelo meu filho, nosso filho. Lembro também que você me dizia que nos amaríamos para sempre e que quando acabasse o sempre começaríamos a nos amar novamente. Quanto tempo dura o para sempre? Chega de pensar no passado, decidi olhar para frente e, ao lado de Lucas, começar a viver. Se eu não fizer isso perderei realmente a única coisa que, percebo só agora, me dá forças para suportar essa vida. Meu querido filho. O filho que criei sozinho, que ensinei a andar de bicicleta, que jogava videogame comigo. Onde foi parar esse menino? Hoje quando o vi naquela cama de hospital eu tentei lembrar dele e não consegui... Meu Deus, eu preciso resgatá-lo. Sem você.

Então, só agora reúno forças para te dizer adeus. Tentarei pensar menos em você. Claro que guardarei um lugar especial pra você nas minhas recordações e no meu coração. E farei com que Lucas faça o mesmo, não será uma luta fácil, mas sem você será melhor...

Adeus meu amor...

Fábio”

Após acabar de escrever ele leu a carta para se certificar que não havia nenhum erro. A imprimiu e colocou em um envelope. Onde escreveu, de forma caprichada, o nome da mulher. Em seguida se levantou e caminhou, levando consigo o envelope, até a estante. Abriu um livro e colocou a carta dentro. Junto ao livro ainda havia a foto de casamento dos dois.

- Por que você teve que morrer, Zana, Por quê? – Não conseguiu segurar o choro, lagrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. – Te amei pra sempre, mas o pra sempre acabou.

Abraçou a foto, orando para que essa fosse a última vez. Largou a foto e pegou a de Lucas, de quando ele ainda era um menino. – Filho, papai voltou! - Falou em voz alta, limpando as lágrimas que teimosamente insistiam em cair. Amanhã seria outro dia, o primeiro de uma nova vida. Iria para o hospital para ver o garoto que há anos deixara de reconhecer. Sentiu paz, finalmente. O para sempre havia definitivamente acabado e ele decidira deixar sua esposa finalmente descansar.

F I M

FRASE DO DIA...

Hoje estava no aeroporto conversando sobre o 11 de setembro quando um amigo meu disse a frase abaixo, referente a falta de fumaça e o carência de pirotecnia nas explosões:

"Nada mais mal feito do que a realidade..."

Rafael Palermo (sábio conhecido do dia)

 
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