24 de março de 2007

BACURAU - CONTO



BACURAU

(Obs: glossário no final do texto)


- Garçom, trás a saideira. – Quem fez o pedido foi Luís, ele estava no bar com Pedro e Gustavo. Os três estavam comemorando a promoção deste último. Eles trabalhavam num banco, departamento de compensação, como sempre frisavam, entravam no trabalho às 16:00h e saiam às 22:00 de segunda à sexta-feira. Era sexta e pela primeira vez desde que trabalhavam juntos resolveram passar a madrugada bebendo.

- De todas as histórias que vocês contaram nenhuma chega perto do da que eu vou contar agora. – Gustavo falara, meio que mole.

- Que nada, você quer é segurar a gente mais tempo aqui. Já são três e meia, minha mulher vai me matar. – Foi a vez de Pedro se pronunciar, a euforia pelo sucesso do amigo havia passado e agora se lembrara que não tinha avisado a esposa que ia chegar tarde. Foi o gancho que Luís precisava.

- Olha... Dominadoooo! Agora é que não vamos mesmo, parece que essa vai ser a primeira saideira. – Luís falou, mais alto que o normal, devido a bebida.

- Bem, o que vou contar agora não sai daqui. – Disse Gustavo, ignorando o último comentário feito. – Eu fico arrepiado só de lembrar.

- Não enrola e conta logo. – Cortou Pedro já olhando para o relógio.

- Tá bom... Vocês sabem que eu estou no banco há mais tempo e sou o único de nós que bebe todos as sextas. – A cerveja chegou e todos encheram seus copos, Gustavo bebeu quase meio copo e continuou. – Bem, isso aconteceu há uns 10 anos atrás. Numa sexta-feira, assim como hoje, eu fiquei bebendo com meus camaradas do banco. Vocês não conhecem nenhum deles. Todos já foram demitidos. Só eu fiquei. - Pegou o copo, bebeu o resto e encheu o copo novamente.

- Naquela noite eu bebi pra caramba, aqui do lado tinha um caldinho* que era uma delícia e bebi quase dois quartinhos* com não sei quantas cervejas. Quando deu umas 4 horas eu resolvi ir pra casa, paguei minha parte da conta e fui pro ponto de ônibus pegar o bacurau*.

- Eu pegava meu ônibus atrás dos correios e apesar de nunca ter pego ele durante a madrugada eu sabia que passava uma vez por hora naquele horário e foi ai que aconteceu. – Deu uma pausa e deu outro gole.

- Não enrola e conta logo. – Falou Pedro, pela primeira vez parecendo estar grogue.

- Que nada, você está é com medo de apanhar. – Brincou Luís dando um amistoso tapa no amigo.

- Parem seus tabacudos*, calem a boca e escutem. – Foi a vez de Gustavo brincar. – Quanto mais vocês brincarem mais vai demorar pra acabar a história e aumenta a chance do Pedroca apanhar.- Completou rindo alto.

- Continuando. Eu fui pro ponto de ônibus e fiquei esperando. Depois de uns 15 minutos ele apareceu. Lembro como se fosse hoje, Centro/Casa Amarela. Eu Morava lá. No mesmo bairro que Luís mora hoje. Dei sinal e ele parou. Vocês lembram que antigamente nós entravamos pela porta traseira e descíamos pela frente. Quando eu entrei percebi que tinham poucos passageiros então sentei atrás e resolvi deitar no banco. Como desceria no terminal poderia ir dormindo até lá. Foi quando aconteceu. – Deu uma pausa e outro gole.

- Quando o ônibus parou num ponto eu senti um perfume de mulher muito forte, resolvi levantar e olhar de quem era. Eu não perdia nenhuma calcinha na época. Era o perfume de uma loira. Linda. Pelo menos por trás. Tinha uma bunda. Ela pagou a passagem e passou pela catraca. Decidi então passar, sentar ao lado dela e jogar um charme. Na hora em que fui girar a catraca e pagar a passagem ela travou. Mesmo fazendo força para passar ela simplesmente não girava. Então olhei pro cobrador pela primeira vez.

- Porra, conta logo esta história. Você pulou a catraca, sentou do lado da loira e foi pro motel com ela. – Cortou novamente Pedro, sua voz parecia ansiosa.

- Já estou acabando, calma. Dominadoooo! – Completou Gustavo rindo.

- Quando eu olhei para o cobrador ele estava dormindo. Então eu o acordei e falei que a catraca não queria rodar. “Como assim?”, perguntou ele. Então eu repeti. De repente notei que os poucos passageiros do ônibus olhavam para mim. Dei uma olhada neles e então percebi. Todos estavam ensangüentados e feridos. Inclusive a loira. Ela estava com uma mancha de sangue que escorria pela parte da frente do vestido. Daí eu perguntei que merda era aquela. Lembrem-se que eu estava bêbado. Hoje só de lembrar eu fico todo arrepiado, se eu estivesse sóbrio teria pulado pela janela do ônibus. Aqueles passageiros pareciam os atores da Noite do Terror do Mirabilândia*. – Gustavo fez outra pausa e notou que os outros dois haviam finalmente se interessado na sua história. Bebeu o resto do copo e completou. – Sabem o que o cobrador me disse? Ele me falou que a catraca não girava porque eu estava vivo. Gritou para o motorista numa voz que eu nunca mais me esqueci, “Tem um vivo aqui.” E fez uma ameaça de se levantar e me pegar. Gente, a cachaça passou na hora. Corri pra janela e aproveitei que o ônibus havia parado e pulei por ela. Percebi que estava no Derby*. Não tive dúvidas, corri pro meio do parque sem olhar para trás. Para falar a verdade eu corri até minha casa. Cheguei lá em uma hora. Estava tão cansado que dormi na sala. Nunca contei essa história pra ninguém.

- Claro que não. Que história doida. – Pedro resolveu desistir de implicar e começara a rir. – Que papo feio, Como é que é? Ônibus fantasma? Hahaha. Terminal Cemitério de Casa Amarela? Dá um tempo.

- Podes crer. Que merda de história. Depois dessa quem vai embora sou eu. – Era a vez de Luís falar. - São umas 4 horas, paga a conta que eu tenho que pegar o bacurau, o de verdade, não o “fantasma”. Hehehe – Completou.

- Ta bom, mas antes de entrar no ônibus certifique-se de que é mesmo o bacurau. E veja se a catraca gira, se não girar desça imediatamente. – falou Gustavo num tom normal e sério. Luís gelou e estranhou a fato de ficar arrepiado.

Pediram a última saideira e beberam conversando sobre amenidades. Como Gustavo havia sido o promovido acabou pagando a conta, quase uma grade* mais as bistecas assadas. Acabou morrendo nuns 80 reais. Pedro acabou o convencendo a levá-lo para casa de carro, já Luís foi sozinho para trás dos correios pegar o ônibus. Esperou pouco, alguns minutos depois ele apareceu, Centro\Casa Amarela. Mas algo estava errado, ele não sabia por que, mas estava arrepiado novamente. À medida que o ônibus estava se aproximando e ele ficava cada vez mais temeroso. O ônibus acabou passando e ele não deu sinal.

- Porra, eu vou é de táxi, chego mais rápido em casa. – Falou em voz alta para si como se no íntimo quisesse acreditar que aquele fosse o real motivo, atravessou a rua e se dirigiu ao lugar que os taxistas faziam ponto de madrugada.

FIM

Bacurau – ônibus que roda pela cidade entre meia noite e seis horas da manhã

Caldinho – um tipo de caldo que parece uma sopa, ótimo acompanhamento para aguardente (hehe)

Quartinho – um quarto de garrafa de aguardente (um copo americano cheio)

Grade – 24 garrafas de cerveja

Tabacudo – babaca

Mirabilândia – um parque de diversões grande, em Olinda, PE

Derby – uma praça de bom tamanho que fica próximo ao centro do Recife, PE

FRASE DO MÊS

Eu sei que é chutar cachorro morto mas vamos lá:

"Se Bush queria saber tudo sobre álcool, procurou o Presidente certo!"

Frase enviado por Binho Yoiti Hisayasu (também conhecido como Hayata, aquele da Patrulha Científica(hehehe))

22 de março de 2007

INCERTEZA - CONTO



INCERTEZA



Pode parecer loucura, eu mesmo não acredito no ocorrido mesmo passado mais de 20 anos Todo esse tempo só me passou pela cabeça a idéia de que tudo poderia ter acabado de forma diferente, infelizmente isso é uma coisa que nunca poderei ter certeza alguma e, o que é pior, tenho que aprender a conviver com isso, seja tão difícil quanto for.
Trabalhava como policial rodoviário desde a época do vestibular, aquele no qual não consegui passar. Naquele momento me pareceu ser uma boa idéia, nunca quis ser médico como meu pai e, de certa forma, ter sido reprovado foi um alívio para mim, era um sinal para não seguir essa carreira. Junte isso a minha paixão de infância, o Vigilante Rodoviário e seu fiel cão Lobo e você terá um policial quase pronto.
Era a metade dos anos 70 e naquela época a farda da corporação impunha respeito, seja por um motivo ou outro. Já trabalhava há alguns anos e estava próximo o dia da minha promoção . Apesar de militar, não concordava com o jeito que o país estava sendo conduzido na época e, sendo patrulheiro, me distanciava das coisas que outros membros da corporação eram obrigados a fazer em outros lugares. Bem, isso era uma coisa que só eu sabia, naquela época você não ia muito longe discordando dos superiores. Meu pai dizia que o país um dia mudaria e que tudo voltaria ao normal, graças a Deus, suas previsões se mostrariam como certas.
Estávamos na primavera e a estrada que eu patrulhava era muito arborizada, dada a sua altura, e era também muito sinuosa, acho que os engenheiros só conseguiram fazer a estrada assim, contornando a serra. A vista era bonita, mas o perigo constante, qualquer deslize e o motorista poderia cair em qualquer das ribanceiras, mas, nunca me preocupei muito com isso, a estrada era pouco usada. O que era para ser uma ligação com o resto do país acabou se tornando um atalho para os moradores das cidades vizinhas. Só a usava quem a conhecia e isso impedia os possíveis acidentes. Para se ter uma idéia havia dias que eu não via viva alma no trecho da estrada que estava sobre minha responsabilidade. Era meio maçante, mas eu gostava do trabalho. Pouco perigo (nunca havia usado a minha arma) e ar puro.
Bem vou voltar à história.
Naquele dia em particular estava com uma tremenda ressaca, no dia anterior havia ocorrido a festa de noivado de um grande amigo meu, ele abriu uma caixa de uísque e serviu aos convidados, como era bebida importada (chamávamos de muamba) e de boa qualidade bebemos até não agüentar mais, como não estava acostumado deu no que deu.
Estava com muita dor de cabeça e agradecendo a Deus meu emprego, tinha a idéia de esconder a moto atrás de uma árvore e dar uma cochilada, nunca tinha tido coragem para fazer isso, mas também nunca tinha acontecido nada que me impedisse, então, o que poderia acontecer no meu plantão? Bem, naquele dia, algo aconteceu.
Tinha acabado de escolher o lugar ideal, bem na parte mais alta da estrada, no local havia algumas árvores e esse seria o local ideal para esconder minha moto e tirar a minha decidida soneca, desci da moto e estava tirando meu capacete quando vi, virando a curva em grande velocidade um fusca, isso por si só já seria ruim e, para piorar, uns 50 metros atrás vinha também uma moto da polícia em perseguição, estranhamente com a sirene desligada. Nessa hora ele deve ter me visto, pois, como se quisesse chamar a minha atenção, ligou a sirene para me avisar que tinha alguma coisa errada. Não tive dúvidas, coloquei de volta o capacete, subi na moto, liguei a sirene e fui atrás deles. Tinha que ser justo naquele dia? O engraçado é que a minha cabeça parou de doer na mesma hora, deve ter sido a adrenalina. Nunca tinha participado de nenhuma perseguição antes. Mas, mesmo assim, sabia como proceder. Consegui passar o meu colega e emparelhar com o carro. O plano era o seguinte: eu emparelharia com o carro e a outra moto ficaria atrás dela e ficaríamos assim até que o motorista resolvesse parar, se isso não acontecesse tentaríamos acertas alguns tiros nos pneus do carro e se mesmo assim o carro não parasse pararíamos em algum lugar e chamaríamos reforços da central, nesses casos um carro intimida muito mais que uma moto.
Só que aconteceu algo que me fez mudar de planos. Ao tentar ver quem estava dirigindo, notei que havia duas pessoas na parte da frente do carro, um homem e uma menina. Dei um grito pedindo para que ele parasse e de nada adiantou.
Como eu disse anteriormente, essas estradas eram muito perigosas para quem não as conheciam e esse era o caso daquele motorista, se o idiota não diminuísse a velocidade acabaria acontecendo algum acidente grave. Durante segundos que pareceram minutos tentei, em vão, convencê-lo a parar. Infelizmente minhas tentativas não foram o bastante e o que eu temia aconteceu realmente O motorista perdeu o controle, justo numa curva das mais perigosas e acabou caindo numa das ribanceiras. Parei a moto perto ao local da queda e larguei a moto de qualquer jeito, uma angustia tomou conta de mim. Comecei a chorar. Imaginei aquela menina, tão novinha, morta ainda criança num estúpido acidente de carro. Minha esposa e eu sempre quisemos ter uma garotinha e a morte de uma me angustiava, coloquei pra fora tudo o que havia comido pela manhã e tomei coragem para descer a ribanceira. Virei para procurar o meu amigo de farda e percebi que o miserável havia sumido, com certeza com receio do relatório que teríamos que fazer para justificar o ocorrido. Infelizmente, na correria, eu não tinha percebido seu número de registro e não poderia dizer quem tinha sido, mas ele não escaparia assim, por Deus, eu acharia aquele covarde e lhe diria poucas e boas, com a minha promoção tão próxima ele tinha conseguido um inimigo que transformaria sua vida profissional num inferno. Respirei fundo e me pus a descer, a principio não havia sinal nenhum do carro e, incrível, todo o mato naquela direção estava intacto, ninguém diria que havia passado um carro por ali, isso naquela hora não chamou muito a minha atenção e à medida que eu ia descendo fui pensando em como a vida é engraçada, aquele era o ponto mais alto e uns bons 18 metros de queda, se o carro tivesse derrapado para o outro lado ele só teria batido numa árvore e talvez não tivesse ocorrido nenhuma morte, quando parei de me perder em pensamentos outra coisa começou a me preocupar... Cadê o carro?
O carro não estava lá, naquele local não tinha mato suficiente para cobrir um fusca, não senti cheiro de gasolina e nenhum marca de fumaça, enfim, nenhum sinal de acidente. Naquele momento fiquei todo arrepiado, isso não poderia estar acontecendo, passe meia hora procurando e por fim desisti. Corri daquele lugar sem olhar pra trás. Foi tremendo que cheguei à minha moto, na estrada nenhum sinal de derrapagem. Eu tinha mesmo enlouquecido. Voltei para a central. Não me lembro da desculpa que dei, só sei que naquele dia não pensei em outra coisa. Alucinação, ou seja lá o que tenha sido, nunca falei daquilo com ninguém. Talvez o apresentador do Além da Imaginação me compreendesse, mas meus amigos dificilmente. Nas 3 semanas seguintes tentei esquecer o ocorrido, e estava quase conseguindo, até que algo aconteceu.
Estas 3 semanas foram de total mudança para mim. Tinha decidido mudar a minha vida, parei de beber (depois do ocorrido bebi apenas mais uma única vez), falei com meu tio que tinha um escritório de advocacia no Rio e ele me deu uma idéia; ser advogado. Eu não seria mais um “Vigilante Rodoviário”, mas estaria do lado da lei. Não tinha ainda 30 anos e, se tudo desse certo, o vestibular e a faculdade, eu me formaria advogado antes dos 35, até lá adquiriria experiência prática no escritório do meu tio, ele, inclusive, já tinha me garantido o emprego. Minha esposa havia ficado feliz, ela nunca gostou da idéia de eu ser policial.
Aquela era a minha última semana, o bota fora seria na sexta-feira, me mudaria para o Rio na próxima semana e após o vestibular, minha esposa iria para lá também. Nunca descobri quem tinha sido o outro motociclista (se é que ele, algum dia, havia existido) e estava feliz em ir embora daquele lugar. E o clima da região recentemente havia mudado, como se para brindar a minha decisão.
Estava acabando meu café no bar na beira da estrada, o bar no qual sempre comia quando me atrasava para o serviço. Ele ficava perto da minha área de trabalho, o que era muito cômodo. Perdido em pensamentos, pensando no nome que daríamos ao bebê que viria (minha esposa, Luiza estava grávida) e em como seria minha vida longe de minha esposa, acabei vendo a garotinha mais linda do mundo, deveria ter uns 7 anos e estava de mãos dadas com sua mãe. Não tive dúvidas, peguei uma das barras de chocolate que havia comprado e quando ela passou por mim ofereci a ela. Ela me olhou desconfiada e me fitou durante alguns segundos enquanto olhava também para o chocolate a sua frente. - Pegue querida, o chocolate do Seu polícia. -Disse a sua mãe. A garota pegou o chocolate e rapidamente virou as costas para mim. –Como é que se fala?- Repreendeu-a sua mãe. –Obrigada!- disse, timidamente, a garotinha, virando-se sem me olhar. A mãe sorriu para mim, agradecendo, e saiu para o estacionamento.
Ao me dirigir ao caixa para pagar, um homem esbarrou em mim, era grisalho e o rosto não me era estranho, talvez fosse algum amigo de papai, ou algum atendente de loja da cidade, só sei que era aquele tipo de rosto do qual nos lembramos e não sabemos de onde, como não fez menção de me cumprimentar deixei pra lá. A fila deveria ter uma cinco pessoas, eu não estava com pressa, caia uma garoa fina e eu odiava trabalhar com aquele tempo, mas a lembrança de que dali a uma semana estaria no Rio me confortava muito.
Olhando para fora, através da porta de vidro, vi a mãe da garotinha acenando para alguém, como se tivesse se despedindo, isso me fez comprar outra barra de chocolate para dar à menina, quando sai fui falar com a mãe. - Senhora. -Disse eu. -Entregue esse chocolate para sua filha.
- Não, senhor, ela não é minha filha. Ela é minha sobrinha. Meu irmão está de férias do jornal em que trabalha e passaram por aqui para me visitar. Mas mesmo assim, muito obrigada. - Respondeu sorrindo a mulher.
Foi ai que olhei para a direção a qual ela estava acenando. Um fusca branco, igual aquele... Deus, fusca branco, uma garotinha e um homem, de repente me lembrei de onde tinha visto aquele homem. Fiquei parado por alguns segundos tentando me recompor, novamente aquele arrepio me pegou. Seria possível...?
Não sei o que me deu, corri para a minha moto e sai atrás do carro o mais rápido que pude. Novamente pensei: seria possível? E se fosse? Tudo o que eu tinha que fazer era parar o carro e guia-lo através da estrada até que a área perigosa passasse, e quem não gostaria de ter um policial como segurança? Quando alcancei o fusca buzinei e fiz sinal para que parasse. Qual não foi a minha surpresa ao notar que ao invés de parar o carro o homem acelerou e começou a fugir de mim. O que ele tinha? Eu não havia feito nada, só pedido para que ele parasse e eu tinha que pará-lo de qualquer jeito. Tinha medo de ligar a sirene e assustá-lo mais ainda, fiquei assim, correndo atrás por quase 4 minutos até que notei um colega com a moto parada, liguei a sirene para que ele me ajudasse. Sorte que ele percebeu e começou a nos seguir. Ele sabia o que fazia, fez exatamente como mandava o manual, ele emparelhou no carro e começou a mandar o fusca parar... Deus, não...
Eu reconheci aquela moto, era a MINHA moto, aquele outro motorista era eu, com ressaca e uma dor de cabeça que havia sumido quando iniciou a perseguição. Que desceria a ribanceira e não veria carro algum, que decidiria mudar para o Rio e se tornar advogado, que passaria os próximos dias me procurando, sem saber se o que tinha acontecido era alucinação e sem saber que o outro motorista era ELE mesmo...
Comecei a pensar em muitas coisas, teria eu ficado finalmente louco? Aquele carro existia mesmo? Infelizmente minha pergunta não tardou a ser respondida.
Foi bem como me lembrava, o carro perdeu o controle e caiu a ribanceira, a mesma ribanceira de antes, meu outro eu sumiu e a mim sobrou a tarefa de averiguar o acidente. Tinha esperança de que o mato novamente estivesse intacto, mas ela não durou muito, lá embaixo estava o fusca, todo destruído pela queda, chorei, pela segunda vez. Desta vez liguei para a central e pedi ajuda, desci correndo até o fusca, e como temia estavam mortos, pai e filha. Fiquei em choque... Só fui acordar no hospital, no dia seguinte.
O nome do homem era Hamilton, ele estava sendo procurado por subversão, sua mulher havia sido presa e ele tinha fugido com sua filhinha, deve ter ficado com medo de ser preso quando comecei a persegui-lo. Mal sabia o coitado que eu só queria ajudar. Mesmo se eu soubesse quem ele era nunca teria o prendido, ainda mais com uma criança.
Naquela noite bebi pela última vez na minha vida, e no meio da madrugada, chorando, veio a pergunta: e se eu não tivesse perseguido-o? Afinal o pobre não tinha feito nada, não havia motivo para perseguição, de certa forma EU os matei. Essa incerteza é a minha maldição. Todo esse tempo guardei essa história para mim. Afinal quem acreditaria? Nem mesmo eu acredito. Mesmo hoje, com minha filha, Adriana, já grande eu, às vezes, me pego pensando se tudo poderia ter sido diferente. Adriana, minha filha querida, que tem o mesmo nome de uma garotinha que morreu há muitos anos atrás num trágico acidente de carro.
FIM

21 de março de 2007

A COLCHA DA FAMÍLIA - CONTO



A COLCHA DA FAMÍLIA

Foi naquela tarde que Zulmira, finalmente, tomou sua decisão. Decidiu por fim a humilhações e surras que seu marido lhe infligira durante os últimos anos de seu casamento.
Zulmira havia se casado nova, como era costume na região em que morou quando jovem. Mais velha de cinco filhos de uma família cujo pai era comerciante, não teve tempo para si. Parecia que havia nascido para ser ama dos menores, seu pai havia tomado a decisão de levar ao pé da letra a ordem bíblica de “ide e procriai”, de certa forma, percebeu mais tarde, foi um alívio sua mãe ter “secado”, às vezes imaginava quantos irmãos haveria de tomar conta se não fosse por isso. Infelizmente esse fato não foi bom para todos. Sua mãe começou a ser humilhada pelo seu pai. Quando bêbado era comum ele tocar no assunto, “mulher inútil” e “imprestável” eram algumas das qualidades imputadas à sua pobre mãe, no começo esses comentários não afetavam Zulmira (ela era pequena e, com essa idade, palavras são palavras), mas com o tempo, e o conhecimento do que essas palavras queriam dizer, elas a foram chateando. Mas fazer o que? Não era pra isso que as mulheres serviam? Seus irmãos não davam trégua, se eles se machucassem (os machos da família eram traquinas demais e isso acontecia seguidamente) ela era punida e quando, por qualquer motivo (maldade talvez), eles faziam alguma reclamação para seu digníssimo pai, ela acabava apanhando (o acontecido sendo verdadeiro ou não), por isso, no início, sentiu muito ódio, mas foi se acostumando. Ódio virou raiva, raiva virou rancor, rancor virou indiferença. Chegou a odiar sua mãe por tê-la colocado nessa situação ao concebê-la, e foi com dificuldade que se acostumou e agüentou firmemente por 19 anos.

Foi numa primavera que Jorge começou a freqüentar sua casa e a levar presentes para seu pai, e Zulmira só veio tomar conta da situação depois. Falando a verdade ela só percebeu do que se tratava quando seu pai entrou no seu quarto e pediu, de forma seca antes de se virar e voltar para a sala, para que ela colocasse o melhor vestido. Sua mãe, que vinha logo atrás com lágrimas nos olhos, dirigiu-se ao guarda roupa e pegou o vestido da missa.
– Minha Filha! - disse sua mãe, sem completar a frase, enquanto esticava o vestido em cima da cama.
À medida que o vestido ia sendo esticado, e desamarrotado, Zulmira começou a sentir receio. – O que está acontecendo? - perguntou para sua mãe, sem perceber que caiam lágrimas de seus olhos também. – Pra que tudo isso?
Foi olhando para o chão que sua mãe respondeu:
– Minha filhinha! Seu Jorge pediu você em casamento ao seu pai... - enquanto falava os olhos iam sendo erguidos de encontro aos de Zulmira. Naquela tarde de domingo, mãe e filha foram amigas e como cúmplices choraram pelo destino que de certa forma a deixavam realmente mais amigas que mãe e filha. Naquela tarde sua mãe lhe explicou o que era ser mulher e lhe contou o que lhe reservava o futuro, e foi naquela tarde que Zulmira descobriu (bem lá dentro, no seu íntimo) que seria mais uma mulher infeliz.

O casório foi providenciado rápido, em seis meses Zulmira já era esposa e dona de casa, seu primeiro filho estava a caminho, este providenciado numa das raras vezes que seu marido a havia tomado sóbrio. Agradecia a Deus o fato de Jorge se interessar muito mais pelas meninas do Salão de Dona Noemi do que por ela. Seu marido era sujo, bebia muito e ela tinha certeza de que se ele fosse provocado bateria nela sem pensar duas vezes, enfim, era tudo o que ela não desejava. Sentia-se traída e abandonada, percebeu que a sua vida não mudaria quando, no mês anterior, havia ido falar com seu pai sobre a sua situação, mas não adiantou muito, ele lhe disse que, uma vez casada, seu marido sabia o que era bom pra ela e afinal, disse ele, onde ela iria conseguir melhor marido do que ele? Após essa conversa ela até pensou em fugir, mas para onde? A única família que conhecia eram sua mãe e seu pai, em sua vida toda nunca havia feito amigas com quem pudesse contar, além de traída e abandonada agora se via sozinha. Mesmo assim reuniu coragem e chegou a preparar uma velha mala de papelão com algumas mudas de roupa, infelizmente Jorge chegou nessa mesma hora e o que era ruim piorou, ela estava certa, ele não chegou a pensar duas vezes... Foi a primeira de uma série de surras que começaram e se tornar freqüentes, por qualquer motivo, desde o feijão salgado (às vezes de propósito, era verdade) até a roupa mal passada, passando pela sua incapacidade de conseguir fazer seu dever de marido, coisa que na cabeça dele só podia ser por culpa da esposa. E assim Zulmira foi levando sua vida.

A chegada do pequeno Antônio deu um novo alento a sua vida, seu marido não a procurava por causa do resguardo, e ela pode colocar a cabeça pra funcionar, de certa forma não era tão ruim assim , pensava, trocou quatro irmãos por um filho, e como esse era o SEU filho, tomaria conta dele com prazer.
Infelizmente as coisas não permaneceram desse jeito.
Jorge, como seu pai, exigia dela um filho por ano, e para seu tormento não secou como sua mãe, de modo que após 10 anos de casada eram 10 filhos para ela criar, e pra piorar tinha certeza que estava grávida novamente. Seu marido piorava ano após anos e, já fazia um tempo havia começado a bater nela de uma forma que começou a ser insuportável, parte porque seu instrumento não funcionava mais de jeito nenhum, e ele agora tinha absoluta certeza de que a culpa era dela, e parte por que as coisas não iam tão bem financeiramente como antes, graças à chegada de uma outra padaria na cidade, finalmente anos de falta de concorrência haviam chegado ao fim e Jorge se mostrou incapaz de competir em pé de igualdade, de modo que perdia clientes mês após mês. E isso tudo era descontado em Zulmira todas as noites. Mas isso ia acabar de uma forma ou de outra, foi com decisão que ela foi, nessa tarde chuvosa, ao seu guarda roupa e abriu o presente de casamento que sua mãe lhe dera. A colcha, sua mãe lhe dissera, estava na família há muitos anos e era passada de mãe pra filha, cada dona havia bordado uma parte e essa era a vez de Zulmira, naquela tarde ela começou seu trabalho...

Poucas pessoas compareçam ao enterro de Jorge, ele não possuía outros familiares e de amigos haviam muito poucos, mas o comentário era geral, morrer com um raio na cabeça era muito azar. Felizmente, como para compensar as humilhações, Zulmira o havia convencido a fazer um seguro de vida e isso haveria de ajudar em sua nova vida de viúva. Pobre Zulmira, haveriam de dizer os vizinhos, perder um pai num ano e o marido em outro era triste... Se eles soubessem que pai e marido eles eram... O que importava pra ela agora era sua nova vida, estava na casa dos trinta e com muitos filhos, é verdade, mas agora poderia começar a viver e talvez voltar a estudar, porque não? Poderia vender a loja e acrescentar esse dinheiro a sua renda, enfim, muita coisa a ser feita e decidida, agora estava só, seus dois maiores problemas haviam sido resolvidos.
Após chegar do enterro a primeira coisa que Zulmira fez foi guardar novamente a colcha, Ela a havia emprestado para sua mãe no ano anterior. E lá estava o bordado de sua mãe, um homem caído ao lado de uma escada, teve inveja da habilidade dela, nunca havia aprendido a bordar direito e só conseguiu fazer um bordado fácil, um homem caído com um raio, era um bordado quase infantil, mas dera certo, e havia servido ao seu propósito. Antes de guardá-la começou a observar a colcha com maiores detalhes, lá estavam dezenas de bordados, um homem boiando em um rio, outro caindo de um cavalo... É, as mulheres de sua família haviam sido muito infelizes, pensou sem conter um sorriso de alívio. Estava grávida de novo e dessa vez haveria de ser uma menina, que ela amaria e ensinaria a bordar e, quando chegasse à hora, daria sua colcha como presente de casamento para ela. E nesse dia teriam a mesma conversa que ela teve com sua mãe, num dia de domingo, há muitas primaveras atrás.



FIM

UMA COISA DE CADA VEZ - CONTO


UMA COISA DE CADA VEZ


Quando entrou no consultório do médico do hospital a primeira coisa que chamou a atenção de Luís foi a grande quantidade de diplomas que este possuía, apesar de novo na aparência ele deveria ser muito bom. Isto lhe deu um certo conforto, sua mulher já estava internada há mais de um mês e nenhum especialista fora capaz de dizer com segurança o que as dores que ela sofria queriam dizer. Era muito triste, Luisa era tão cheia de vida, apesar de quase cinqüenta anos ninguém lhe dava mais de quarenta, muita malhação e dieta fizera dela uma bela mulher. Quando saiam juntos ela chamava a atenção. Mesmo tendo quase a mesma idade ele aparentava ser bem mais velho que ela. Era com um misto de indignação e orgulho que ele percebia os olhares cobiçosos dos outros homens para sua esposa. Mas, fazer o quê? Ela era realmente muito bela... E era toda dele...
A estranha doença de Luisa começou assim que voltaram de uma viagem ao Haiti. Haviam planejado essa viagem durante muito tempo. Muitos amigos perguntaram o porquê daquele país, quem viaja sabe que o interessante de se viajar e justamente conhecer lugares que são pouco visitados, afinal, quem quer ficar com uma penca de brasileiros em Miami? Se for pra ser assim pra que sair do Brasil? Digam qualquer coisa, mas as praias haitianas valem realmente cada centavo gasto e se tratando de um país pobre como aquele cada centavo vale muito. Viagem boa e barata, se não fosse pela doença teria valido muito mais a pena.
Perdido em pensamentos quase não percebeu a entrada do médico. Nem se deu ao trabalho de cumprimentá-lo, “Então doutor, alguma novidade? Qualquer coisa pelo amor de Deus.”, falou isso percebendo, surpreso, a aflição da própria voz. “Posso ao menos falar um pouco com ela hoje? Já faz mais de uma semana que não nos deixam conversar. Só alguns minutos...”.
- Veja bem Senhor Luís, já o avisamos que sua mulher, pelas dores que está sentindo, deve permanecer sedada a maior parte do tempo. – Falou de forma bem impessoal o jovem médico e continuou. – Como não fazemos a menor idéia do que ela tem só falta apelarmos para uma tomografia, note que no corpo ela não tem nada. Nada físico. Ela está em ótimas condições, existem pessoas que são suscetíveis a doenças psicossomáticas, este pode ser o caso de Dona Luísa. A dor está na cabeça dela. Se for esse o caso, daremos placebo e a faremos acreditar que está tomando realmente remédio além de acompanhamento psicológico. Isso funciona em quase cem por cento dos casos. Mas só saberemos ao certo amanhã após o exame. - Terminando de falar soltou um arremedo de sorriso pela primeira vez. Como se quisesse consolar o pobre marido. Mesmo jovem como era sabia como era sofrida a vida de parceiros de doentes, ainda mais de uma doença que não aparece. Assim que o viu chorando ao lado da cama de sua esposa jurara que faria tudo que estivesse ao seu alcance para curá-la. E Deus sabia que esse juramento ele iria cumprir. – O senhor poderá falar com ela por poucos minutos, mas se ela reclamar de dores a sedaremos imediatamente, está entendendo? – Falou num tom ríspido apesar do sorriso no rosto.
Luís não teve animo para responder, conseguiu esboçar um sim com a cabeça, quase que automático. – Muito abrigado, doutor, salve a minha esposa! – O final da frase saiu sem querer, havia compreendido o que o médico dissera, resumindo, ninguém sabia o que Luisa tinha, sendo assim pedir, implorar, que a salvassem o fizera parecer patético. Esse sentimento de inferioridade passou logo. Apertou a mão do médico que começara a falar amenidades, saiu da sala e caminhou pelos corredores até o quarto da esposa.
Enquanto andava imagens vívidas da vida a dois passavam em frente aos seus olhos. Desde que se conheceram no colégio não se largaram mais. Luís e Luísa. No começo nenhum dos dois queria assumir que estava interessado em um relacionamento. Até entre eles era piada terem o mesmo nome. Depois foram se acostumando e com isso todos os amigos se acostumaram também. Não estranhavam mais. Ambos queriam fazer jornalismo e ambos passaram no vestibular no mesmo ano. A única grande diferença entre os dois vinha das origens familiares, a família de Luísa era rica, segundo sua mãe estavam no país a mais de quatrocentos anos, seu pai era engenheiro e por conhecer gente importante tinha a empresa colocada em todas as grandes obras do governo, por outro lado Luis não tivera toda essa sorte. Sua família não era pobre, longe disso, tinham casa própria, duas, uma na praia, carro e telefone numa época que este tinha o mesmo preço de um automóvel. Mas tudo era inútil. Para os pais de Luisa ele sempre seria um pobretão. Mesmo quando ela desistiu da faculdade e ele continuou, e se formou. E mesmo depois de conseguir um emprego em uma famosa revista o desdém permaneceu o mesmo e, mesmo agora, quase trinta anos depois de se conhecerem, os pais de Luisa não faziam questão de manter contato mais intimo, só aquele contato civilizado que a sociedade os impõe. Mas para Luis eles poderiam ir para o inferno. Tudo o que importava agora era a saúde de sua mulher. Aliás, pensou sorrindo, Luisa sempre viera em primeiro plano.
Assim que chegou à porta do quarto deu um suspiro. No fundo temia o que encontraria, fazia uns três dias que não a via e esperava que nesse meio tempo ela não tivesse emagrecido muito. Respirou fundo, tomou coragem e abriu a porta. O quarto estava claro e mesmo com as janelas abertas para arejar ainda dava pra sentir aquele cheiro inconfundível de hospital. O quarto era amplo (e muito caro), precisou dar uns quatro passos para chegar à cama. E só então prestou atenção na esposa. Magra e pálida, tinha sido assim desde que as dores começaram. Parou de comer, não conseguia mais dormir e quando os analgésicos se mostraram ineficazes procuraram um médico. Após duas semanas de sofrimento resolveram a manter sedada. Só assim ela conseguiria suportar as dores.
Sentou bem devagar na cama, como que para não acorda-la.
Pegando na mão de Luisa de forma delicada falou num tom bem baixo: “Amor... Sou eu...” – Sentiu os olhos marejando. Então continuou. “Você pode estar dormindo, mas saiba que eu sempre te amei, desde a primeira vez que te vi.” – Apertava as mãos cada vez mais. “Eu sempre te fui fiel... Você é tudo pra mim e espero te ver logo.”. Desistiu de continuar, talvez tenham carregado demais nos anestésicos e ela não possa acordar - pensou. Os pensamentos vinham e iam. Por fim deu um respeitoso beijo na testa e resolveu ir embora. Saiu do quarto olhando para ela uma última vez.

Chegando em casa a primeira coisa que Luís fez foi ir de encontro a garrafa de whiski. Sentou no sofá e fechou os olhos, bebendo tudo bem lentamente. Já sonolento começou a lembrar da viagem. Das praias e das festas do hotel. Lembrou da camareira do hotel que impediu que fosse despedida e lhe jurou ajudá-lo no que fosse necessário. Da noite em que esta mesma camareira lhe levou na casa de Papa Camus e da estranha cerimônia que se seguiu. Do sangue do bode e das galinhas, do terrível cheiro que exalavam certas bebidas... Num Sobressalto acordou suado... “Meu Deus!” – Exclamou.
Rapidamente correu para o quarto. Quase que no automático se dirigiu ao guarda-roupa, abriu a porta do meio e puxou a última gaveta de baixo. De dentro tirou uma caixa de madeira. Pegou a chave que trazia sempre consigo numa corrente pequena e abriu a caixa...
- Eu sempre te fui fiel, amor... – sussurrou pra si. De repente sua feição mudou, mesmo sem ter conhecimento disso, e continuou, desta vez mais alto - ... Mas você não, piranha...
Puxou de dentro da caixa diversas fotos, em comum Luísa, em todas. Com diversos homens, alguns ele conhecia, outros não. Todos amantes dela. Puxou também uma boneca feita de pano velho, esta boneca ele fizera ainda no Haiti, do jeito que Papa lhe ensinara. Pegou outro alfinete e espetou na cabeça da boneca (contando agora com oito alfinetes ao todo). – Espero que esteja doendo amor. Do jeito que doeu em mim cada caso seu.
Ainda rindo pegou outra boneca. – Dona Jussara, seu genro tem um presente pra você... Olhe que boneca linda, vou colar um tufo de cabelo seu pra homenageá-la... Não vai ficar linda? Hehehe. Esse riso já não era dele. De repente pensou no que aconteceria se jogasse a boneca de sua sogra no fogo. Será que chamuscaria o corpo? Decidiu acabar de brincar com Luísa. Pegou a sua boneca e arrancou o pescoço. – Adeus amor... Falou novamente baixo. Começou, então a guardar as coisas.
Após alguns minutos o telefone começou a tocar. Deveria ser do hospital. Essa semana seria muito atribulada. Tratar de enterro costuma ser muito chato. Mas tudo bem, estava ansioso para estrear a boneca de sua sogra e uma semana passa rápido. Aquela megera ia pagar por cada
humilhação e comentário maldoso feito. Foi atender ao telefone – Dona Jussara? Vamos brincar de boneca? Após dizer isso atendeu ao telefone. Realmente era do hospital.


FIM

MUITO OBRIGADO - CONTO


MUITO OBRIGADO


Fazia horas que aquelas duas figuras estavam no bar esperando pelo início do trabalho. Dico e Zitão eram o que poderíamos chamar de “colegas de profissão”, haviam se conhecido no presídio onde passaram uns tempos, ambos pelo mesmo motivo, latrocínio. Como saíram pela mesma época resolveram juntar forças e começaram a praticar delitos juntos. Não eram o que poderíamos chamar de amigos, mas apesar das diferenças, se davam bem. Dico era mais calmo, havia matado um homem, era verdade, mas havia sido em legitima defesa, “como um cara vai dar uma de machão com alguém segurando uma arma?”, era a pergunta que sempre ponteava seus relatos do motivo de sua prisão. Lógico que ele não explicava que o “machão” atacou depois dele falar o que iria fazer com a sua esposa. Zitão era mais esquentado, nas partilhas do resultado dos roubos era dele a palavra final, ele havia matado 4 pessoas. 4 para a justiça, mas Zitão perdera as contas após o oitavo, o primeiro havia sido aos 13 anos. O homem tinha tido o azar de acordar na hora errada, e zitão com medo disparou. O homem morreu na hora, tiro de perto, bem no rosto, Zitão vomitou o sanduba de mortadela que havia comido mais cedo e chorou um pouco. Desse a justiça não sabia. No primeiro dia após sua primeira morte ficou angustiado, mas as coisas que comprou com o que roubou e o poder que sentiu por ter dado cabo da vida de alguém fizeram essa angustia passar logo. Então Zitão aos 13 anos começou sua carreira.

Esse golpe havia sido planejado há duas semanas. Era uma família bem comum, papai, mamãe e filhinho, ou filhinha, não dava pra saber ao certo, era de colo e nessa idade as roupas dos bebes são todas iguais. O que chamou a atenção foi o carro, importado e do ano, devia ter custado mais de 100, a casa era grande pra caramba e aparecia uma mulher vez por outra com um carro também importado, mas esse com motorista. Ou seja, essa família valeria, por baixo, mais de um milhão. As informações eram seguras, haviam custado um churrasco na casa do vigia da rua, um homem que depois de umas pingas havia entregado todo o serviço. Tudo muito simples. Uma vez por semana, sempre aos sábados, a família ia para uma galeria no centro da cidade, então, na saída, tomariam o carro rapidamente e levariam o homem. Como a esposa veria o marido ser levado o pagamento sairia mais rápido (supunham) e como não tinham a menor intenção de devolver o homem, o trabalho seria perfeito, sem cativeiro nem nada. Só o local pra pegar a grana e sumir por esse mundo. Pediriam uns 5 milhões o que lhes renderiam uns 2 no final, um milhão pra cada. Daria pra fazer bastante coisa.
Os dois estavam pensando justamente nisso quando o carro que eles queriam estava saindo do estacionamento da galeria. Haviam estado lá nas últimas três semanas e sabiam que a partir deste momento tinham um minuto no máximo para chegar ao carro. E foi o que fizeram.
A abordagem foi como planejada. Cada um foi por um lado. Zitão arrancou a mulher de dentro do carro com criança e tudo. Gritando palavras desconexas e xingando muito. Deu uma tapa na cara da mulher para ela saber que estavam falando sério e passou para o banco de trás deixando-a sentada na calçada chorando e gritando como seu bebê. Dico, por ser maior, ficou de intimidar o homem. “Abra a porta pleibói, senão te dou um tiro nos cornos e mato a sua vagabunda... Vai mano... Abre logo essa porra!” - Gritava olhando para o homem com cara de mau. O Homem chegou a falar alguma coisa, mas Dico estava nervoso e teve que o calar com uma coronhada no rosto. Enquanto o homem segurava seu rosto, devido à dor, ele desistiu de esperar, correu pela frente do carro e entrou pela outra porta, sentando-se ao lado do motorista e fechando a porta com força. Olhando pela janela, olhou para a esposa do homem. “Ae piranha, vamu levar o corno do teu marido, fica pianinho e não fala nada prus homi. O negócio é grana, ouviu? Grana...”- Depois de falar ainda apontou a arma pro colo da mulher, onde se encontrava agora o bebê chorando e fez o movimento de atirar. A mulher não esboçava mais nenhuma reação, só olhava sério para o carro, como se não enxergasse, estava em choque.
“Vamulá, otário. Dirige calado que eu vou te mostranu o caminho.” – Enquanto falava ia cutucando as costelas do homem com o cano da arma, “ Tu vai direto para o bairro de São Miguel, intendeu otário?”. O homem fez um sinal de sim com a cabeça e começou a acelerar o carro, sem falar nada. Só então Dico relaxou.
“Eu num falei que ia dar certo, mano?” – Falava Zitão já se esparramando no banco de trás. “Agora é só chegar na favela e ligar de um orelhão pra babaca, o importante é não dá chance da muié dá uns plá prus homi.”- Começou a gargalhar, já pensando no que faria com o dinheiro do resgate.
“Vocês acreditam em Deus?”- O homem de repente falou, a primeira coisa que ele falava em 5 minutos, desde que o carro havia deixado a mulher estendida no chão. “Que papo feio é esse, Mane? Cala a boca e dirige...” - Completou Zitão com um tapa na nuca do homem. Deu resultado, o homem não falou mais, pelo menos não com eles.
“Pai nosso que estais no céu...” - O homen começou a orar, “...santificado seja...”. “Num mandei você calar a boca?”- Reagiu Zitão ameaçando bater nele novamente. O homem não parou.
“... teu nome. Venha a nós...” - Enquanto orava a velocidade do carro ia aumentando, já estava com mais de 150 por hora, mas isso eles só perceberam tarde demais. “... o vosso reino, seja feita a...”, 170, 180, “... assim na Terra quanto no céu...”, 190.
“Diminui a velocidade, Mane, quer nos matá...”, foi a última coisa que Dico disse e “... tenha misericórdia de mim e perdoe os meus pecados. Amém” foi a última que ele escutou.
O carro bateu a mais de 200 por hora de frente com um poste, não sobrou nada, nem ninguém.

Maurício, era esse o nome do homem, era uma pessoa muito querida, seu enterro estava apinhado de gente. O que poucas pessoas sabiam era que Maurício era um homem desenganado. Não por motivo de doença, mas desenganado pela vida. A empresa na qual era sócio estava indo a falência. E estava devendo muito. A vergonha pelo fracasso e o medo de encaram o filho recém nascido como perdedor o estavam consumindo. Com sua morte no trágico acidente ele finalmente pode descansar afinal. Já havia tentado se matar antes, mas o que o impedia era o seguro, o mesmo seguro que agora haveria de suprir sua família com um certo conforto que ele não poderia mais oferecer. E ele sabia que nenhuma seguradora pagaria uma apólice para um suicida. Se foi suicídio ou não ninguém jamais saberia. Para todos ele morrera enquanto era seqüestrado por dois marginais perigosos que na ânsia de fugir o fizeram correr demais. De todas as pessoas no enterro apenas Márcia, sua esposa, tinha suas dúvidas. Olhando para o menino em seus braços ela se lembrava das palavras ditas naquela manhã durante o café: “Amor, eu morreria por você e pelo Gabriel, se isso fosse necessário...” – Será que ele achou necessário? Essa pergunta ela jamais conseguiria responder...


FIM

APÊNDICES - CONTO


APÊNDICES


Quando acordou tentou lembrar de onde estava. A memória veio surgindo aos poucos. Casa, transporte, hospital e parto, tudo nessa ordem. Finalmente após alguns meses seu filho havia nascido. Era verdade que deu pouca (ou nenhuma) atenção aos conselhos das outras mulheres da colônia. Não procurou nenhum médico para o pré-natal e se descuidou da dieta, de modo que prometera pra si mesma que após a operação perderia os 10 quilos ganhos. Seu filho havia nascido bem, pelo menos chorara, disto ela tinha certeza. Tentou se mover, mas não conseguiu. O corpo estava pesado, bem, a culpa era dela mesma que havia optado por cesariana, esse peso todo deveria ser efeito dos anestésicos que lhe haviam dado antes da cirurgia. De repente o sono veio como uma onda, ela bocejou e os olhos começaram a pesar, seu último pensamento antes de dormir foi a vontade louca de ver seu filho. Ela não sonhou.
Acordou novamente, desta vez mais consciente. Já sabia onde estava e a sonolência havia passado por completo. Seu corpo a obedecia mais facilmente e tentou levantar da cama. Fora uma leve tontura estava tudo normal. Ouviu o relógio, 10 horas de um dia qualquer. Havia entrado no hospital na terça-feira, calculou ter dormido um dia inteiro, deveria ser quinta-feira. Apertou o alarme para chamar a enfermeira. A tontura aumentou um pouco, sentou na cama e esperou.
Um, dois, três minutos. Apertou novamente. Alguns segundos depois a enfermeira entrou. “Já acordada?”, perguntou num tom seco. “Você deve permanecer deitada, mesmo uma cesariana não deixa de ser uma cirurgia”, continuou no mesmo tom. Sentiu a mão da enfermeira em seu pulso.
- Quando vou ver meu filho? Por que ele não está aqui comigo? – Perguntou apesar dela não esboçar nenhum sinal de quem queria responder.
Após alguns segundos veio a resposta: “Senhora, o médico virá em poucos instantes atendê-la, deite-se e tenha um pouco de paciência, sim?”, o tom havia melhorado. Mesmo ansiosa não estava com vontade de dialogar, desde sempre detestara tomar remédio e achava que era por isso que estava tão cansada. Falta de costume.
Começou a pensar no seu futuro filho, de como ele seria. Como mais nova de três irmãs e, ainda por cima, temporã seu filho seria quase um primo para os bisnetos de seus pais, chegou a sorrir com a idéia. Uma das vantagens de morar no subterrâneo era a longevidade, o ar era muito mais puro do que na superfície, pelo menos era o que se dizia. Nas aulas de história era contada de como foi a passagem de cima para baixo. De como o planeta havia ficado quente demais, de como as pessoas começaram a morrer intoxicadas só por respirarem onde não se podia. De como começaram a se construir condomínios inteiros embaixo da terra, condomínios que viraram bairros e depois cidades e, finalmente, de como a superpopulação fez com que se construí-se cada vez mais pra baixo. Isso havia sido há muito tempo. Hoje toda a humanidade estava adaptada, os geradores de oxigênio proviam toda a humanidade de ar puro e totalmente reciclado, as plantações hidropônicas forneciam a comida, a vida era boa, se cada pessoa fizesse a sua parte. Havia ouvido em algum lugar que nos tempos remotos as pessoas passavam fome e tinham que trabalhar para os outros para comer e se vestir. Que horror. Hoje fazíamos o que gostávamos, tudo pelo bem da colônia. Era verdade que só se podia ter dois filhos por casal, mais isso podia ser moeda de troca com casais que queriam mais, ou menos, filhos. Seus pais haviam feito isso, um acordo com um jovem casal, compraram o direito de ter um filho além da cota no lugar deles. Essa história era contada em todos os jantares de família, seu pai dizia que havia feito isso para agradar a sua mãe e sua mãe dizia que seu pai ainda queria ter a chance de ter um menino. Ela achava que nunca saberia a verdade. Seus pensamentos foram repentinamente interrompidos quando ela sentiu a entrada do médico no quarto.
“Como está se sentindo, Dona Vera?”, Perguntou num tom esquisito que ela não conseguiu identificar. “Tenho algumas perguntas a fazer, seu registro está meio que incompleto, a senhora está em condições de responder?”
Ela começou a se sentar na cama perguntando: “Meu filho Doutor, cadê ele?”, respirou fundo e continuou, “Eu sei que foi uma cesariana, mas eu sei também que ele está bem e que deveria estar aqui comigo...”
O médico não deixou que ela continuasse, segurou no seu pulso para sentir a pressão e falou num tom de voz mais sério que o anterior.
“Dona Vera, eu sei que a senhora trabalha na fábrica de reciclagem e que tem pouco conhecimento acadêmico. Vou tentar ser o menos didático possível...”, quando o médico começou a falar ela começou a sentir receio pelo seu filho, “ Doutor, cadê meu filho?”, ela começara a gritar, mesmo sem perceber.
“Calma. Sua filha, é uma menina, nasceu bem. Eu só estou aqui para falar sobre algumas complicações do nascimento dela.”, ela começou a esboçar vontade de falar quando o médico a cortou antes que começasse. “Deixe-me acabar, depois que a senhora me ouvir poderá fazer o que quiser.”
O médico falou por um tempo que lhe pareceu uma eternidade, palavras fortes foram ditas e ela fez o possível para prestar atenção e tentar entender. Por fim sua mente não agüentou e ela desmaiou.

Dois dias depois lá estava Vera em frente da incubadora de sua filha, como o médico disse havia nascido menina, infelizmente não uma menina normal. O médico falou sobre incapacidade pulmonar e auditiva. Ela deveria ficar na incubadora até que conseguisse respirar o oxigênio dos dutos, se é que ela alguma vez conseguisse. No final da conversa foi-lhe dito que o jeito mais fácil para todos, inclusive para Vera 6 (esse seria o nome que lhe seria dado), seria que a incubadora fosse desligada e que a pequenina morresse de forma indolor. Ela nunca seria normal, mesmo que acabasse conseguindo respirar sozinha, suas orelhas eram pequenas demais, muito menores que o normal. Seria para sempre motivo de piadas para os outros. Como uma áudio novela as imagens fluíam em sua mente
“Ela tem a aparência de um macaco, um antigo animal terrestre. Há milênios parecíamos com eles, nossos antepassados tiveram que usar tecnologia genética para evoluirmos rápido, cada vez mais e mais, cruzamento seletivo e muitos outros recursos. Nunca conseguiríamos sobreviver sob a terra se não tivesse sido desse jeito. A senhora sabia que só nos juntamos com quem quisermos há apenas 3 mil anos? Durante muito séculos foram escolhidos os parceiros certos para que as crianças nascessem cada vez mais adaptadas... Mas isso é história. Sua filha sofreu um processo de involução, acho que podemos chamar assim. É muito raro. Como eu já falei, nosso desenvolvimento não foi muito natural, e as vezes acontece isso, algumas crianças nascem macacos...” Macacos... Antes desse momento nunca havia pensado em como a Terra deveria ter sido na superfície. Que animais morariam lá em cima, quando isso ainda era possível...?
“Tecnicamente sua filha estaria adaptada a morar em um lugar que tivesse um tipo de oxigênio diferente Somos adaptados a usar pouco e ela precisaria de muito. Ela viveria menos que nós, talvez uns 70 anos. Sua audição é pouco desenvolvida. Seus olhos enxergam num espectro diferente do nosso, aqui ela não conseguiria enxergar nada. Enfim... Como disse, às vezes acontece e nesses casos as mulheres têm o bom senso de dar fim a esse arremedo de vida.” De repente percebeu que estava com nojo da menina. Meu Deus, ela era sua filha e ela estava com nojo...
“E a senhora quando pegar a menina perceberá que o corpo dela é anatomicamente diferente do nosso, não se assuste quando senti-la. Só tenha em mente que no caso dela a morte é uma benção...” Essa foi a parte que havia doido mais.
E aqui estavam elas, uma mãe desorientada e uma filha que ninguém queria. Tomou coragem e decidiu abrir a incubadora. A menina começou a tossir e ela não agüentou. Abraçou a filha e o nojo foi substituído por carinho. Tristemente estava presenciando a morte de uma coisa há muito esperada. Culpou-se por não ter feito o pré-natal, isso talvez tivesse evitado esse momento. Abraçou a filha carinhosamente e começou a senti-la. “Como o médico havia chamado mesmo?”, pensou consigo, “apêndices, dissera ele, isso mesmo apêndices.” Havia isso no meio do rosto, o nome era nariz e era usado para filtrar o ar, ou algo parecido. Sentiu os olhos da criança, grandes demais, para poder enxergar com muita luz, algo que aqui embaixo não havia. Orelhas pequenas, de formato achatado, diferente do de forma conchal que nos ajudavam a aproveitar melhor o som. Corpo liso, sem pelos, “como ela sobreviveria sem os pelos e com orelhas tão pequenas? Suas orelhas nunca passariam de uns 10, talvez 20 centímetros. Muito pequena...”. Os cinco dedos em cada membro, um a mais do que o necessário, foi outra coisa que lhe chamou atenção. Estava pensando nisso quando percebeu que a menina não respirava mais. A abraçou por mais um minuto e finalmente a colocou de volta na incubadora. “Pobre criança!”, pensou enquanto enxugava as lágrimas. “Nunca teria uma chance...”
Agora tentaria esquecer Vera 6. Havia dito para seu marido que a filha havia morrido no parto, esse segredo ela guardaria só pra ela. Ninguém precisaria saber o que foi que nasceu dela. Ela havia amado aquela criatura por alguns instantes, mas trataria de esquecê-la. Ninguém jamais precisaria saber que ela havia dado a luz a um monstro. E agora torcia para que a próxima tentativa desse certo e que nascesse uma criança normal.


FIM

Putz... Faz tempo...

Poxa, nem percebi que fiquei o maior tempão sem escrever aqui...
Vou postar uns contos que fiz... Comentários serão bem vindos...
Boa leitura...