26 de ago de 2007

ENCRUZILHADA PASSAGEIRA - CONTO

Encruzilhada Passageira


Do lado de fora de um quarto, num hospital qualquer, dois homens estão sentados esperando a hora de entrar. A impaciência está patente nos rostos dos dois. Mesmo assim nenhum se atreve a falar com o outro. Apesar de parecerem ter a mesma idade a diferença é de apenas 3 anos. Seus nomes são Marcos e André. Eles são irmãos.

Desde 20 anos antes, por uma briga rotineira, aquelas que acontecem dezenas de vezes em famílias com mais de um filho, mas que naquela ocasião em particular, deslanchou para palavras pesadas. Palavras que envergonharam os dois durante esse tempo todo. Ninguém lembra como aquilo começou, nem como terminou, mas o saldo foi uma família que nunca mais foi a mesma.

- Vocês podem entrar. – os pensamentos de ambos, fossem quais fossem, foram cortados por essa frase, dita pelo cirurgião que estava acompanhando a reabilitação da mãe deles depois da cirurgia. – Não vou mentir para vocês. – continuou o médico da forma mais natural possível. – O quadro não melhorou, ela está sendo mantida sedada a maior parte do tempo. Temo que ela não passe desta noite. – pigarreou antes de completar. – Sinto muito.

- Doutor, ela pode falar conosco? – Marcos sempre fora o mais pragmático.

- Claro, foi ela mesma que pediu. A enfermeira deixou escapar que vocês estavam aqui. Ela fez questão de falar com ambos. No fundo ela deve saber o que está para acontecer. – completou o médico sem olhar para o rosto de nenhum deles.

- Obrigado. – disse André após apertar a mão do médico e entrar apressadamente no quarto.

No quarto, deitada na cama, estava a mãe deles. Dona Rosa. Havia criado sozinha os dois após o pai abandoná-los. O começo havia sido difícil, mas com esforço levou os dois para faculdade. Apesar de irmãos eles eram pessoas bem diferentes. Marcos era mais compenetrado. Começou a trabalhar em empregos certos, sempre com o objetivo de crescer cada vez mais e mais. André era o “artista” da família. Sempre estudara, era verdade, mas com relação a empregos só trabalhava o bastante para fazer “caixa” e tocar os seus projetos. Nem sempre bem sucedidos. Mesmo com essas diferenças Dona Rosa amava os dois do mesmo jeito. Sua única tristeza na vida era ver os irmãos tão afastados desde o natal de 85.

- Meus filhos. – enquanto falava lágrimas escorriam pelo velho rosto.

Fazia dias que eles não a viam desperta. Aquela imagem chocou os dois. A mulher que era tão cheia de vida agora estava reduzida a uma pálida imagem do que já fora.

Marcos foi o primeiro a se pronunciar. – Mãe, como a senhora está?

- Filho, estou bem. Principalmente agora que vejo vocês juntos.

- É mãe, fizemos as pazes lá fora. – Falou André ao mesmo tempo que colocava seu braço no ombro do irmão. – Nos perdoe... – não conseguiu continuar.

- A senhora vai ficar legal. - tentou mentir Marcos.

- Eu sei... – a voz começara a falhar. – No fim da minha vida vocês me deram um presente. O melhor presente que uma mãe pode receber. Paz.

- Sabemos disso mãe. É por isso que viemos juntos. - Marcos completou.

- Isso mãe, nos vamos ficar juntos para sempre. – enquanto falava foi se ajoelhando ao lado do leito da mãe. – Eu prometo.

A mãe não falou mais nada. Com um sorriso terno no rosto, suspirou pela última vez.

E foi assim que depois de 20 anos eles fizeram alguma coisa juntos. Abraçados ao corpo da mãe os dois choraram por muito tempo.

Após Marcos fazer os acertos acerca do corpo e providenciar os pormenores do enterro olhou para o irmão que estava sentado de forma desolada num banco da recepção do hospital. Realmente não tinha o que dizer. Finalmente seus olhos se cruzaram. Foi então que os dois perceberam que nada havia mudado. Mesmo sem se lembrarem de como aquela discussão havia começado, ou muito menos acabado. Palavras que ninguém se lembrava ainda ecoavam na cabeça dos dois. Sem se despedirem cada um saiu por uma porta. Para a mesma tarde chuvosa. Cada um para seu próprio caminho, que nunca mais se cruzariam novamente.

F I M

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26 de ago de 2007

ENCRUZILHADA PASSAGEIRA - CONTO

Encruzilhada Passageira


Do lado de fora de um quarto, num hospital qualquer, dois homens estão sentados esperando a hora de entrar. A impaciência está patente nos rostos dos dois. Mesmo assim nenhum se atreve a falar com o outro. Apesar de parecerem ter a mesma idade a diferença é de apenas 3 anos. Seus nomes são Marcos e André. Eles são irmãos.

Desde 20 anos antes, por uma briga rotineira, aquelas que acontecem dezenas de vezes em famílias com mais de um filho, mas que naquela ocasião em particular, deslanchou para palavras pesadas. Palavras que envergonharam os dois durante esse tempo todo. Ninguém lembra como aquilo começou, nem como terminou, mas o saldo foi uma família que nunca mais foi a mesma.

- Vocês podem entrar. – os pensamentos de ambos, fossem quais fossem, foram cortados por essa frase, dita pelo cirurgião que estava acompanhando a reabilitação da mãe deles depois da cirurgia. – Não vou mentir para vocês. – continuou o médico da forma mais natural possível. – O quadro não melhorou, ela está sendo mantida sedada a maior parte do tempo. Temo que ela não passe desta noite. – pigarreou antes de completar. – Sinto muito.

- Doutor, ela pode falar conosco? – Marcos sempre fora o mais pragmático.

- Claro, foi ela mesma que pediu. A enfermeira deixou escapar que vocês estavam aqui. Ela fez questão de falar com ambos. No fundo ela deve saber o que está para acontecer. – completou o médico sem olhar para o rosto de nenhum deles.

- Obrigado. – disse André após apertar a mão do médico e entrar apressadamente no quarto.

No quarto, deitada na cama, estava a mãe deles. Dona Rosa. Havia criado sozinha os dois após o pai abandoná-los. O começo havia sido difícil, mas com esforço levou os dois para faculdade. Apesar de irmãos eles eram pessoas bem diferentes. Marcos era mais compenetrado. Começou a trabalhar em empregos certos, sempre com o objetivo de crescer cada vez mais e mais. André era o “artista” da família. Sempre estudara, era verdade, mas com relação a empregos só trabalhava o bastante para fazer “caixa” e tocar os seus projetos. Nem sempre bem sucedidos. Mesmo com essas diferenças Dona Rosa amava os dois do mesmo jeito. Sua única tristeza na vida era ver os irmãos tão afastados desde o natal de 85.

- Meus filhos. – enquanto falava lágrimas escorriam pelo velho rosto.

Fazia dias que eles não a viam desperta. Aquela imagem chocou os dois. A mulher que era tão cheia de vida agora estava reduzida a uma pálida imagem do que já fora.

Marcos foi o primeiro a se pronunciar. – Mãe, como a senhora está?

- Filho, estou bem. Principalmente agora que vejo vocês juntos.

- É mãe, fizemos as pazes lá fora. – Falou André ao mesmo tempo que colocava seu braço no ombro do irmão. – Nos perdoe... – não conseguiu continuar.

- A senhora vai ficar legal. - tentou mentir Marcos.

- Eu sei... – a voz começara a falhar. – No fim da minha vida vocês me deram um presente. O melhor presente que uma mãe pode receber. Paz.

- Sabemos disso mãe. É por isso que viemos juntos. - Marcos completou.

- Isso mãe, nos vamos ficar juntos para sempre. – enquanto falava foi se ajoelhando ao lado do leito da mãe. – Eu prometo.

A mãe não falou mais nada. Com um sorriso terno no rosto, suspirou pela última vez.

E foi assim que depois de 20 anos eles fizeram alguma coisa juntos. Abraçados ao corpo da mãe os dois choraram por muito tempo.

Após Marcos fazer os acertos acerca do corpo e providenciar os pormenores do enterro olhou para o irmão que estava sentado de forma desolada num banco da recepção do hospital. Realmente não tinha o que dizer. Finalmente seus olhos se cruzaram. Foi então que os dois perceberam que nada havia mudado. Mesmo sem se lembrarem de como aquela discussão havia começado, ou muito menos acabado. Palavras que ninguém se lembrava ainda ecoavam na cabeça dos dois. Sem se despedirem cada um saiu por uma porta. Para a mesma tarde chuvosa. Cada um para seu próprio caminho, que nunca mais se cruzariam novamente.

F I M

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