2 de jun de 2007

UM LUGAR SEGURO PARA MORAR - CONTO


UM LUGAR SEGURO PARA MORAR


- Então é ele?

- Ao que tudo indica, sim. – essa conversa estava sendo travada pela metade da polícia de Roseiral, ela era composta por 1 delegado ,1 agente e 2 soldados. A cidade não precisava de mais que isso e mesmo 4 já eram demais. A cela em que estavam conversando o delegado Maciel e o agente Carlos havia ficado vazia por quase 10 anos. A outra era ocupada pelos moradores da cidade que insistiam em beber demais nos finais de semana e cujas esposas não os deixavam entrar em casa, causando gritaria na rua e ligações para polícia ir resolver o crime mais comum na cidade, perturbação da paz.

- Você quer dizer que esse cara chegou aqui hoje no final da tarde e assumiu a culpa pelo assassinato do ano passado? – o delegado se referia ao único assassinato ocorrido em Roseiral. Há um ano o corpo de Marcos, o desocupado da cidade, havia sido encontrado na praia cheio de cortes de faca e mordidas. Maciel havia sido transferido após 10 anos de trabalho na capital e mesmo assim se surpreendera com o estado do cadáver. O corpo estava parcialmente devorado e os olhos e língua haviam sido arrancados e jamais encontrados. Embora não assumisse ele suspeitava que essas partes tinham sido comidas pelo assassino, foram semanas de pesadelos por isso e agora, já recuperado, aparecia esse filho da puta para fazê-lo se lembrar.

- Doutor, ele sabia do sumiço dos olhos... – isso era prova incontestável de culpa. Esse detalhe havia sedo mantido em segredo para não assustar a população ou afetar o turismo da região. De modo que só quem sabia disso era a policia e contar esse fato a alguém era caso para exoneração do cargo. -... só pode ter sido ele.

- Carlos, esse é o primo da vítima. Que motivo ele teria para fazer aquilo? Meu Deus, esse cara ajuda a minha mulher a carregar as compras da feira do mês. Ele me parece totalmente inofensivo. – enquanto falava pensou no corpo e lembrou das vezes que André, a pessoa que estava na cela, havia almoçado na sua casa. De repente ficou arrepiado.

- O negócio é esperar ele acordar. Quando chegou estava completamente bêbado e está dormindo faz umas 3 horas.- deu uma pausa para acender o cigarro e depois continuou - Lá pelas 11 nós o acordamos e fazemos as perguntas devidas. O senhor sabe que temos que transferi-lo o mais rápido possível para a capital, se vazar que estamos com o assassino ele poderá falar demais. Se é que me entende.

- Eu sei. Você está certo Carlos. Vou ligar para a capital agora e providenciar tudo. – falando isso se virou e caminhou para seu escritório, seguido por Carlos que deu uma última olhada para André tentando entender o motivo daquilo.

- André, fingindo dormir, escutara toda a conversa. Teve vontade de chorar ao lembrar do primo. Tinham a mesma idade e sempre foram como irmãos. Marcos era um bom homem e só queria ter uma oportunidade para mudar de cidade e começar vida nova. Aquela noite, há um ano atrás, estava bem vívida na sua cabeça. Poderia ter sido ontem, a bebida o estava deixando meio doido. A noite tinha que tomar uns 2 copos de cachaça. Só assim as vozes sumiam e ele poderia dormir em paz. Era sempre “Estou chegando, vou fazer com você o que fiz com o seu primo, carne de gente é uma delícia...” seguido de uma descrição de como seria feito. Toda noite a mesma coisa. Não poderia falar com ninguém sobre isso. Pobre Marcos, só queria roubar um dinheiro para se mudar. Toda a conversa daquela maldita noite estava marcada na suas lembranças...

- Vai ser fácil André. Aquela velha tem que ter muito dinheiro guardado. Basta entrar e descobrir onde ele está. Não vamos nem roubar tudo, só o bastante para fugirmos desse buraco... – foi essa empolgação que o convenceu, Marcos deveria estar planejando já há bastante tempo.

- Como você sabe que ela tem dinheiro? A velha nunca sai de casa, se ela tivesse dinheiro moraria numa casa melhor e não naquela porcaria caindo aos pedaços.

- Por isso mesmo tonto. Se ela nunca vai ao banco, não recebe visita e nem cartas como ela pode pagar pelas compras que levamos para ela toda semana? – na verdade André nunca havia parado para pensar nisso. O nome da velha era Leonor, ela estava na cidade desde antes dos dois nascerem. Nunca saía da velha casa e sempre pagava suas contas com dinheiro. Toda semana um dos dois providenciava a compra da sua lista. A gorjeta era muito boa e Marcos estava certo. De onde vinha o dinheiro? Na hora pareceu fácil demais.

- O negócio é o seguinte. – seus olhos brilharam quando falou do plano – Por volta das 2 da madrugada subimos no telhado, tiramos algumas telhas e entramos. A velha deve ter um sono bem pesado. Vasculhamos a casa encontramos a grana e saímos pela porta.

- E se ela acordar Marcos?

- Tu é muito bunda mesmo. Ela é uma velha. A casa fica meio isolada e se ela acordar, amarramos.

- E como ela vai sair? Ela pode morrer de fome se não for solta...

- Porra André, deixa de ser burro. Pegamos a grana e assim que chegarmos em outra cidade ligamos pra alguém soltá-la. A polícia não vai atrás de gente por causa de uma merreca. – a insistência acabou convencendo e o plano foi posto em prática.

Naquela madrugada nem tudo aconteceu como Marcos pensara. André se acovardou e Marcos acabou entrando sozinho.

- Marcos, eu não sou ladrão. Nem você é. – essas súplicas não foram ouvidas.

- Panaca, essa é a nossa única chance. Essa velha ta quase morrendo e se alguém tem que ficar com o dinheiro que seja eu. – falou com convicção e depois continuou – Pode ficar se quiser. Só te peço que avise se vier alguém. Covarde!

Marcos pulou o muro subiu no telhado e entrou conforme o plano principal.

Essa foi a última vez que viu seu primo.

Apesar da lembrança daquela noite estar bem viva o que aconteceu depois se desvaneceu um pouco. Durante alguns minutos ficou esperando e então passou pelo portão e caminhou até a porta. André lembra claramente do que ouviu. “Quem está aí?”, a voz da velha era inconfundível. “Apareça miserável. Eu sei que tem alguém aí.” - ficou esperando a velha gritar pelo susto. Esperou em vão. O que ouviu foi seu primo gritar. Não um grito de susto, mas um grito de dor e medo. Parecia mais o grito que os porcos dão quando vão serem sangrados. Essa lembrança é a mais forte. O grito e o que foi dito depois. “Saia de perto de mim... Socorro André...” – Seu sangue gelou e correu para casa.

Esperou pelo seu primo e dois dias depois o encontraram morto na praia. A polícia não deixou ninguém ver o corpo. E foi nessa noite que começou a ouvir a voz. Soube então o que acontecera com seu primo, e aconteceria com ele brevemente. Nunca mais chegara perto da casa e muito menos da velha, ficara sabendo que ela agora dependia de alguns garotos para fazerem as suas compras. Também não conseguia sair da cidade, havia algo que o segurava, só de pensar em se mudar entrava em pânico e mudava rapidamente de idéia. Poderia ficar bebendo para dormir enquanto vivesse se não fosse um pequeno problema.

Ultimamente a voz estava mais insistente e cada vez mais alta. Como se algo estivesse chegando mais e mais perto. André só teve essa idéia há 2 dias. Se entregaria para a polícia e uma vez na prisão a coisa que prometera pegá-lo não o alcançaria. Essa foi a primeira vez em um ano que se sentia seguro. A cadeia seria um lugar seguro para morar. Segundo soube pegaria uns 30 anos pela morte de seu primo. Afundou a cabeça no travesseiro e então cochilou, sendo despertado alguns segundos depois pela voz que ele conhecia tão bem.

- Andréééé, chegou a hora. Sabia que você tem olhos lindos? – dessa vez a voz veio seguida de um hálito quente perto do seu rosto.



- Você ouviu isto? – Maciel estava lendo um livro e foi interrompido pelo grito que vinha das celas.

- Claro que sim, doutor. - respondeu Carlos enquanto de levantava e pegava a sua arma. - Que grito horrível.

- Vamos lá ver. - Maciel pegava a sua arma também. - Deve ter sido um pesadelo. Podemos aproveitar e interrogá-lo agora... – essa frase foi cortada por um outro grito, ainda maior e mais horrível que o primeiro. Maciel correu então para as celas. Algo em seu íntimo lhe dizia que novas noites de pesadelos estavam a caminho.

FIM

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2 de jun de 2007

UM LUGAR SEGURO PARA MORAR - CONTO


UM LUGAR SEGURO PARA MORAR


- Então é ele?

- Ao que tudo indica, sim. – essa conversa estava sendo travada pela metade da polícia de Roseiral, ela era composta por 1 delegado ,1 agente e 2 soldados. A cidade não precisava de mais que isso e mesmo 4 já eram demais. A cela em que estavam conversando o delegado Maciel e o agente Carlos havia ficado vazia por quase 10 anos. A outra era ocupada pelos moradores da cidade que insistiam em beber demais nos finais de semana e cujas esposas não os deixavam entrar em casa, causando gritaria na rua e ligações para polícia ir resolver o crime mais comum na cidade, perturbação da paz.

- Você quer dizer que esse cara chegou aqui hoje no final da tarde e assumiu a culpa pelo assassinato do ano passado? – o delegado se referia ao único assassinato ocorrido em Roseiral. Há um ano o corpo de Marcos, o desocupado da cidade, havia sido encontrado na praia cheio de cortes de faca e mordidas. Maciel havia sido transferido após 10 anos de trabalho na capital e mesmo assim se surpreendera com o estado do cadáver. O corpo estava parcialmente devorado e os olhos e língua haviam sido arrancados e jamais encontrados. Embora não assumisse ele suspeitava que essas partes tinham sido comidas pelo assassino, foram semanas de pesadelos por isso e agora, já recuperado, aparecia esse filho da puta para fazê-lo se lembrar.

- Doutor, ele sabia do sumiço dos olhos... – isso era prova incontestável de culpa. Esse detalhe havia sedo mantido em segredo para não assustar a população ou afetar o turismo da região. De modo que só quem sabia disso era a policia e contar esse fato a alguém era caso para exoneração do cargo. -... só pode ter sido ele.

- Carlos, esse é o primo da vítima. Que motivo ele teria para fazer aquilo? Meu Deus, esse cara ajuda a minha mulher a carregar as compras da feira do mês. Ele me parece totalmente inofensivo. – enquanto falava pensou no corpo e lembrou das vezes que André, a pessoa que estava na cela, havia almoçado na sua casa. De repente ficou arrepiado.

- O negócio é esperar ele acordar. Quando chegou estava completamente bêbado e está dormindo faz umas 3 horas.- deu uma pausa para acender o cigarro e depois continuou - Lá pelas 11 nós o acordamos e fazemos as perguntas devidas. O senhor sabe que temos que transferi-lo o mais rápido possível para a capital, se vazar que estamos com o assassino ele poderá falar demais. Se é que me entende.

- Eu sei. Você está certo Carlos. Vou ligar para a capital agora e providenciar tudo. – falando isso se virou e caminhou para seu escritório, seguido por Carlos que deu uma última olhada para André tentando entender o motivo daquilo.

- André, fingindo dormir, escutara toda a conversa. Teve vontade de chorar ao lembrar do primo. Tinham a mesma idade e sempre foram como irmãos. Marcos era um bom homem e só queria ter uma oportunidade para mudar de cidade e começar vida nova. Aquela noite, há um ano atrás, estava bem vívida na sua cabeça. Poderia ter sido ontem, a bebida o estava deixando meio doido. A noite tinha que tomar uns 2 copos de cachaça. Só assim as vozes sumiam e ele poderia dormir em paz. Era sempre “Estou chegando, vou fazer com você o que fiz com o seu primo, carne de gente é uma delícia...” seguido de uma descrição de como seria feito. Toda noite a mesma coisa. Não poderia falar com ninguém sobre isso. Pobre Marcos, só queria roubar um dinheiro para se mudar. Toda a conversa daquela maldita noite estava marcada na suas lembranças...

- Vai ser fácil André. Aquela velha tem que ter muito dinheiro guardado. Basta entrar e descobrir onde ele está. Não vamos nem roubar tudo, só o bastante para fugirmos desse buraco... – foi essa empolgação que o convenceu, Marcos deveria estar planejando já há bastante tempo.

- Como você sabe que ela tem dinheiro? A velha nunca sai de casa, se ela tivesse dinheiro moraria numa casa melhor e não naquela porcaria caindo aos pedaços.

- Por isso mesmo tonto. Se ela nunca vai ao banco, não recebe visita e nem cartas como ela pode pagar pelas compras que levamos para ela toda semana? – na verdade André nunca havia parado para pensar nisso. O nome da velha era Leonor, ela estava na cidade desde antes dos dois nascerem. Nunca saía da velha casa e sempre pagava suas contas com dinheiro. Toda semana um dos dois providenciava a compra da sua lista. A gorjeta era muito boa e Marcos estava certo. De onde vinha o dinheiro? Na hora pareceu fácil demais.

- O negócio é o seguinte. – seus olhos brilharam quando falou do plano – Por volta das 2 da madrugada subimos no telhado, tiramos algumas telhas e entramos. A velha deve ter um sono bem pesado. Vasculhamos a casa encontramos a grana e saímos pela porta.

- E se ela acordar Marcos?

- Tu é muito bunda mesmo. Ela é uma velha. A casa fica meio isolada e se ela acordar, amarramos.

- E como ela vai sair? Ela pode morrer de fome se não for solta...

- Porra André, deixa de ser burro. Pegamos a grana e assim que chegarmos em outra cidade ligamos pra alguém soltá-la. A polícia não vai atrás de gente por causa de uma merreca. – a insistência acabou convencendo e o plano foi posto em prática.

Naquela madrugada nem tudo aconteceu como Marcos pensara. André se acovardou e Marcos acabou entrando sozinho.

- Marcos, eu não sou ladrão. Nem você é. – essas súplicas não foram ouvidas.

- Panaca, essa é a nossa única chance. Essa velha ta quase morrendo e se alguém tem que ficar com o dinheiro que seja eu. – falou com convicção e depois continuou – Pode ficar se quiser. Só te peço que avise se vier alguém. Covarde!

Marcos pulou o muro subiu no telhado e entrou conforme o plano principal.

Essa foi a última vez que viu seu primo.

Apesar da lembrança daquela noite estar bem viva o que aconteceu depois se desvaneceu um pouco. Durante alguns minutos ficou esperando e então passou pelo portão e caminhou até a porta. André lembra claramente do que ouviu. “Quem está aí?”, a voz da velha era inconfundível. “Apareça miserável. Eu sei que tem alguém aí.” - ficou esperando a velha gritar pelo susto. Esperou em vão. O que ouviu foi seu primo gritar. Não um grito de susto, mas um grito de dor e medo. Parecia mais o grito que os porcos dão quando vão serem sangrados. Essa lembrança é a mais forte. O grito e o que foi dito depois. “Saia de perto de mim... Socorro André...” – Seu sangue gelou e correu para casa.

Esperou pelo seu primo e dois dias depois o encontraram morto na praia. A polícia não deixou ninguém ver o corpo. E foi nessa noite que começou a ouvir a voz. Soube então o que acontecera com seu primo, e aconteceria com ele brevemente. Nunca mais chegara perto da casa e muito menos da velha, ficara sabendo que ela agora dependia de alguns garotos para fazerem as suas compras. Também não conseguia sair da cidade, havia algo que o segurava, só de pensar em se mudar entrava em pânico e mudava rapidamente de idéia. Poderia ficar bebendo para dormir enquanto vivesse se não fosse um pequeno problema.

Ultimamente a voz estava mais insistente e cada vez mais alta. Como se algo estivesse chegando mais e mais perto. André só teve essa idéia há 2 dias. Se entregaria para a polícia e uma vez na prisão a coisa que prometera pegá-lo não o alcançaria. Essa foi a primeira vez em um ano que se sentia seguro. A cadeia seria um lugar seguro para morar. Segundo soube pegaria uns 30 anos pela morte de seu primo. Afundou a cabeça no travesseiro e então cochilou, sendo despertado alguns segundos depois pela voz que ele conhecia tão bem.

- Andréééé, chegou a hora. Sabia que você tem olhos lindos? – dessa vez a voz veio seguida de um hálito quente perto do seu rosto.



- Você ouviu isto? – Maciel estava lendo um livro e foi interrompido pelo grito que vinha das celas.

- Claro que sim, doutor. - respondeu Carlos enquanto de levantava e pegava a sua arma. - Que grito horrível.

- Vamos lá ver. - Maciel pegava a sua arma também. - Deve ter sido um pesadelo. Podemos aproveitar e interrogá-lo agora... – essa frase foi cortada por um outro grito, ainda maior e mais horrível que o primeiro. Maciel correu então para as celas. Algo em seu íntimo lhe dizia que novas noites de pesadelos estavam a caminho.

FIM

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