21 de abr de 2007

ALICE - CONTO

ALICE

Demorou um tempo, mas finalmente Alice conseguiu sair do carro. “Graças a Deus não aconteceu nada comigo”, pensava. Foi sorte e tudo aconteceu muito rápido. A chuva chegara de repente e com muita força. O fato de ser noite só piorou a coisa. Deixara para consertar o limpador de para-brisa na próxima semana. Irônico. Nunca fora boa motorista, era verdade, por isso sempre fizera questão de namorar com homens que dirigissem, pena que estava sozinha há muito tempo, tempo demais. O último havia sido Jacques, o jornalista, legal é verdade, mas muito aquém do que ela achava que merecia, e isso já fazia quase um ano.
Pensava nisso enquanto tentava sair do acostamento atravessando os galhos das árvores que haviam sobrado depois do carro passar por entre elas. O carro havia deslizado para fora da estrada bem uns 15 metros. Ela estava ensopada e a escuridão era quase total, se guiava em direção a iluminação da estrada usando os postes como referência. A lua não estava no céu, não que fizesse diferença. A chuva continuava muito forte e as nuvens a cobririam de qualquer forma. Finalmente chegou à estrada. Correu pra baixo de um dos postes de iluminação e, apesar dos olhas marejados pela água que corria por cima deles, começou a prestar atenção em si para ver se estava sangrando em algum lugar. “Incrível”, estava inteira, sem nenhum arranhão ou dor no corpo. Talvez depois, quando a adrenalina fosse embora, sentisse as dores, mas agora, pelo menos, estava tudo bem. Depois que o susto passou e estava começando a amaldiçoar a sua sorte percebeu um pequeno abrigo que deveria servir como parada de ônibus do outro lado da estrada. Não teve dúvidas, correu para lá. Nem precisou olhar para os lados, a estrada estava deserta, sem nenhuma viva alma. Haveria de passar um ônibus mais cedo ou mais tarde. Pelas suas contas deveriam ser, ainda, umas nove horas da noite. Passaria algum, disso tinha certeza, só torcia para que não demorasse muito. Voltaria para Santa Cruz, ligaria para um guincho e pediria que viessem buscar seu carro, que nem estava todo pago ainda. Não, antes disso tomaria um banho. “Hummm, banho... Bem quente...” pensou com satisfação.
Quando menos esperava, finalmente, apareceu um ônibus. Ela deu sinal, insistentemente, para que parasse. O veiculo acabou passando direto. “Poxa, acho que ele não me viu, droga...”, falou bem alto dessa vez. Teve vontade de falar alguns palavrões, mas se conteve. Ela nunca dizia palavrões e, apesar da situação, não iria começar agora.
A chuva não dava sinal que iria passar. Pensou novamente no banho, este pareceu ainda mais atraente agora. No momento trocaria qualquer coisa por um banho quente. Principalmente agora que o frio estava aumentando. “Ainda bem que é verão, se fosse inverno...” chegou a sentir os efeitos do frio só de pensar nisso. Notou faróis de carro vindo ao longe, sempre tivera por norma nunca aceitar caronas de estranhos, mas não estava em condições de agir normalmente. E talvez este nem parasse. O medo era mútuo, tanto de quem dava quanto de quem pedia uma carona, ainda mais a noite. Por fim arriscou e começou a acenar.
O carro não diminuiu a velocidade, como ela temia. Já estava se acostumando com a idéia de esperar por mais algumas horas quando ouviu uma buzina. Olhos para trás e viu que o carro havia parado mais a frente. Continuava buzinando de forma rítmica e piscava os faros na mesma cadência. Então ela correu em direção ao carro. “Que seja uma mulher ou um velho... Por favor...” orava enquanto corria. Ao chegar perto do carro a porta foi aberta e ela entrou bem rápido, fechando a porta atrás de si.
- Oi minha jovem, que chuva, heim? A senhorita está indo pra onde? – para surpresa, e conforto de Alice, quem acabara de falar era um velhinho, bem simpático por sinal. “Graças a Deus...”, sentindo-se aliviada, então respondeu.
- Muito obrigada por parar senhor. Meu nome é Alice, sofri um acidente...- começou a falar de forma rápida o que fez o velho corta-la.
-Calma minha jovem, eu me chamo Pedro.- falou enquanto oferecia sua mão para cumprimenta-la. – Alice, não é? Belo nome. Vou levá-la para Santa Cruz. Pela sua cara deve ter passado um susto e tanto. Já passou... – falava de uma forma tão natural que tranqüilizou Alice.
- Desculpe senhor, é o nervosismo. - se expressava de forma mais calma dessa vez. - Eu estava indo para Palmital quando perdi o controle do carro. Graças a Deus estou bem. Obrigada pela carona.
- Está vendo como é melhor se acalmar? Tenho uma toalha no banco de trás, pegue-a e se enxugue. – dizia ele enquanto ligava o carro. – Você ia pra Palmital, numa chuva dessas fazer o quê? – perguntou sorrindo.
- Não, quando eu saí de casa não estava chovendo. – se surpreedeu ao perceber que estava sorrindo também. – Eu sou artista plástica e estava indo resolver um problema com algumas peças minhas numa loja da cidade. – completou enquanto se enxugava.
- De noite? Deve ser um baita problema. - começou a rir do que falara, de tal forma que Alice riu também.
- E não é? Foi burrice mesmo. – começou a pensar no que iria resolver, realmente não poderia ter esperado.
- E o senhor? Está viajando pra onde? – foi a vez de Alice perguntar.
- Eu sou representante e estou resolvendo um problema aqui na região. E este tem que ser à noite, mocinha. Antes que a senhorita zombe de mim. -falou em tom de piada.
- Não, isso nunca passou pela minha cabeça. – isso realmente tinha passado pela cabeça dela, mas o velho a impediu antes que ela comentasse.
- Olhe, tem uma lanchonete logo ali. Quer tomar um café? A senhorita está gelada e um café lhe iria fazer bem. – falou apontando para uma lanchonete de posto de combustível.
- Acho que sim, obrigada, senhor. – de repente, passando instintivamente a mão pelo corpo notou que havia esquecido a bolsa e a carteira no carro...
- Tudo bem senhorita, eu pago... - afirmou, como se conseguisse ler seus pensamentos. – só que pare de chamar de senhor. Meu nome é Pedro.
- Só se o senh... Você... Me chamar de Alice. Senhorita é um pouco demais. - deixou escapar para sua surpresa. - Tenho trinta e seis.
-Combinado. – completou o velho sorrindo.
A chuva continuava e o velho estacionou o mais perto possível da lanchonete. Alice abriu a porta do carro e correu diretamente para a porta, usando a toalha para se proteger. “Bem que um café quente faria bem.”, pensou já chegando à porta, com o velho logo atrás.
A lanchonete estava vazia, com exceção do atendente. Este deveria ter pouco mais de 18, ainda não havia saído da fase das espinhas. Quando ia pediu um café ao jovem, Pedro a cortou.
- Alice, vá se sentar que eu pego os cafés.
Ao ouvir isso, Alice nem pensou duas vezes, olhou em volta e escolheu uma mesa cuja cadeira ficava bem atrás da geladeira. “Lá deve estar quente. Se for igual à geladeira lá de casa, ali deve estar um forno.”, pensou consigo já caminhando em direção a ela.
Após se sentar pôde finalmente reparar no seu salvador, não tinha notado antes por causa da pouca iluminação do carro, mas ele parecia conhecido, tinha certeza disso. Aquele rosto lhe era muito familiar. Essa sensação só aumentou enquanto ele seguia em direção à mesa segurando 2 xícaras fumegantes. Ao chegar à mesa Pedro colocou uma xícara na frente dela, que foi imediatamente segurada para esquentar as mãos. Pos a outra em frente à cadeira vazia e finalmente se sentou. Alice não se conteve e acabou perguntando.
- Eu não te conheço de algum lugar?
- Minha jovem, eu sou um velho de 70 anos, todos os velhos se parecem. -respondeu enquanto levava a xícara à boca. Sorveu um pouco e depois continuou.
- Tenho um rosto muito comum. Mas não vamos falar de mim, vamos falar de você. O que fez uma jovem tão bonita sair de casa numa noite chuvosa e pegar a estrada para ir à outra cidade?- completou em tom de brincadeira.
- Olhe, eu já falei que não estava chovendo quando eu saí... – pausou para tomar um gole. -... Se eu soubesse não teria saído, fui para Palmital resolver uns proble...
- Problemas. – Completou o velho, como se estivesse sem paciência de continuar ouvindo.
- Isso você já disse... – foi a vez dele beber. – Não creio que uma situação dessas fizesse você sair de noite, sem contar que não sabe dirigir direito e...
Esses comentários a deixaram surpresa.
- Como você sabe que eu não sei dirigir direito? – havia levantado a voz sem saber o porquê. – E agora me dou conta. Como sabia que eu ia pra Santa Cruz? – continuou cada vez mais alto.
- Calma Alice, me perdoe, eu não quis te aborrecer. Beba seu café. - completou Pedro falando tranquilamente para acalmá-la.
- Vou ao banheiro. – falou Alice levantando-se. Deu uma pausa e depois completou. – Desculpe por ter gritado. Acho que estou nervosa. - deu as costas e seguiu para o banheiro.
Enquanto seguia em direção a porta com o velho símbolo que indicava que aquele espaço era destinado às mulheres, ia pensando no que o velho lhe dissera. Ele estava certo. Não fora uma situação qualquer. Sua vida seria decidida essa noite. Ficara quieta tempo demais. Não tinha 36 e sim 40, embora nunca assumisse por um ridículo capricho feminino. Não tinha mais família, sua mãe havia morrido no ano anterior a deixando só. Há quase um ano não saia com ninguém, filhos então... Parecia ser algo impossível para ela. “O que me fizera ir para outra cidade no meio da noite?”, a resposta era simples. Iria matar. Matar a desgraçada que havia desistido do pedido encomendado. Pedido este que ela tinha demorado mais de dois meses para fazer e que a miserável, num simples telefonema jogou tudo por terra. “Quem ela pensava que era?”, Alice decidira deixar de ficar quieta e finalmente iria dar o troco. Começaria com Janete da galeria e depois o imbecil do Jacques. Que a havia humilhado deixando como lembrança apenas a palavra “frígida” para lembrar do relacionamento. Durante toda a sua vida tinham a feito de boba, parte do motivo era o jeito que sua mãe a criara. Sempre dependente e incapaz de fazer algo sem pedir permissão antes. Estava cheia de ser ninguém. Estava sentindo-se a criatura mais inútil do mundo. Segurou um choro que finalmente não veio e entrou.
Dentro do banheiro se olhou no espelho. Apesar de sujo ele refletia seu reflexo muito bem. Não era bonita, já havia se acostumado com essa idéia, mas também não era feia. Quando se maquiava e se vestia adequadamente era muito paquerada. “Se não fosse a timidez.”, lavou o rosto e começou a decidir o que faria daquele momento em diante.
Não passou mais de cinco minutos no banheiro, gastou todo esse tempo pensando no que iria fazer e chegou a uma simples conclusão. Não mataria mais ninguém. De certa forma foi sorte ter sofrido o acidente, isso a impediu de fazer besteira. Ela iria matar Janete, disso tinha certeza, mas pra que? Pra ser presa? Não era uma assassina profissional, como nos filmes. Teria deixado com certeza alguma pista contra si. Estava sorrindo e se sentindo tão leve. Afinal, ninguém tinha culpa da sua condição, só ela mesma. Ao chegar à mesa sorriu para Pedro.
-Então, está melhor Alice? – perguntou Pedro, estranhamente de forma bem jovial.
- Sim estou, obrigada, muito obrigada por tudo. Está tudo claro agora. Muito obrigada mesmo. – respondeu sorrindo.
- Fico feliz que tenha desistido da idéia de matar alguém. – Pedro falou de repente, fazendo Alice ficar assustada e confusa com a afirmação.
- O que você está dizendo? – perguntou Alice, já sentindo a voz lhe faltando.
- Ora Alice, eu te conheço melhor do que você mesma. Agora fique quieta e deixe-me falar. – assim que Pedro falou isso Alice não sentiu mais vontade nenhuma de se mexer ou falar. Não estava paralisada, simplesmente perdera a vontade de mexer o corpo. Por algum motivo estava tão interessada no que o velho iria falar que ficaria ouvindo por todo o tempo que fosse necessário.
- Alice, querida Alice. Você sabia que sua mãe queria te abortar? Não? Sua mãe nunca lhe contou isso. Eu não deixei que acontecesse. Fiz questão de segurar você no ventre dela até que ela mudasse de idéia. Mesmo com as quantidades cavalares de remédios e chás abortivos tomados eu sempre vigiei você. – tomou o último gole de café, que estranhamente ainda fumegava. Olhou para Alice com ternura, então continuou.
-Vieram as três tentativas de suicídio, nessas vezes você quase conseguiu morrer e eu te deixei aqui porque sabia que me seria útil. Cara Alice eu tenho uma proposta pra te fazer. Como já deve ter percebido eu não sou humana, nem homem eu sou, pra falar a verdade nem mulher. Estou com os homens desde o início dos tempos e agora estou cansada. Preciso de uma substituta e tenho certeza que você serve. Você tem duas opções... - então começou a explicar. Enquanto falava olhou fixamente para os olhos de Alice. Ela devolveu o olhar e então percebeu uma coisa que não havia notado antes. Os olhos dele. Na idade que eles aparentavam. Olhando, sem piscar, nos olhos daquele velho ela enxergou a eternidade.
A explicação durou quase meia hora, realmente Alice não tinha muito o que escolher. Havia morrido no acidente. Seu corpo estava esmagado dentro do carro. Ela era um apenas uma projeção de como se lembrava ser. Não poderia voltar para a sua antiga vida pois não tinha mais uma. Vida, palavra engraçada, pode significar tanto tudo quanto nada. No fim ela aceitou a proposta. Pedro havia lhe desejado boa sorte e passado todo o conhecimento adquirido durante uma infinidade de séculos num simples aperto de mão. Ela não era mais Alice, agora era algo mais. Sentiu pena da raça humana, tão fugaz em sua existência.
Não estava somente ali, mas também em incontáveis lugares por todo o Universo. Estava acompanhando em sua última viagem um pequenino ser que habitava um planeta no outro lado da galáxia. Estava levando no colo uma criança que acabara de morrer no berço. Alentava um coitado que havia se matado e que agora queria saber o motivo da dor não ter passado. Eram bilhões de Alices no outro lado do universo consolando uma raça, agora extinta, que havia perecido junto com seu sol. Era ela em todos esses lugares. E ao mesmo tempo não era. Todos poderiam descansar em seus braços após uma exaustiva vida de sucessos ou fracassos. E no final de tudo, quando a última estrela se apagasse ela estaria ali para apagar a luz e fechar a porta. Ela era a morte.
Num pensamento as suas roupas ficaram secas. Finalmente descobrira de onde conhecia o velho, aliás, a imagem escolhida por ele. Ele era o velho idoso que estampava a marca de aveia que sua mãe preparava todas as manhãs quando Alice era criança. Sorriu pela ironia. A imagem foi escolhida para tranqüilizá-la. Algo que a acalmasse. Dera certo. Alice estava mais viva do que nunca. Sentia que esperara por isso a vida toda.
Calmamente andou em direção ao balcão, na sua mão apareceu uma nota de 50. O rapaz não se lembraria do velho, para todos os efeitos o velho sempre fora Alice. Ele só se lembraria de ter servido os cafés para ela. Ao ficar de frente ao atendente ela lhe ofereceu a nota.
- Fique com o troco. - falou sorrindo para o rapaz.
- Muito obrigado, madame. Volte quando quiser. – respondeu o rapaz já pensando no que faria com a gorjeta.
Elegantemente ela se virou e olhou para ele com ternura. Sorriu e então falou.
- Claro Guilherme, eu voltarei. Pode esperar. – depois de falar saiu pela porta para o ar da noite.
Após a mulher sair Guilherme foi até a porta para trancá-la. Não poderia expulsar uma mulher sozinha numa chuvarada daquelas. Só estava esperando ela sair. “Mulher estranha. Mas muito bonita”, “Como será que ela sabia meu nome?” – estava perdido em pensamentos. O último deles veio antes de apagar as luzes e sair pela porta dos fundos, “Espero que ela volte mesmo.”, e ele tinha certeza, bem lá no fundo, que a veria de novo algum dia.


FIM


Este conto tem dona, o nome dela é ... Alice (rss). A visitante de número 3000 deste Blog. Espero que tenha gostado. Queria escrever um drama, mas só saiu assim. Acho que só sei escrever coisas esquisitas... Abração...
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21 de abr de 2007

ALICE - CONTO

ALICE

Demorou um tempo, mas finalmente Alice conseguiu sair do carro. “Graças a Deus não aconteceu nada comigo”, pensava. Foi sorte e tudo aconteceu muito rápido. A chuva chegara de repente e com muita força. O fato de ser noite só piorou a coisa. Deixara para consertar o limpador de para-brisa na próxima semana. Irônico. Nunca fora boa motorista, era verdade, por isso sempre fizera questão de namorar com homens que dirigissem, pena que estava sozinha há muito tempo, tempo demais. O último havia sido Jacques, o jornalista, legal é verdade, mas muito aquém do que ela achava que merecia, e isso já fazia quase um ano.
Pensava nisso enquanto tentava sair do acostamento atravessando os galhos das árvores que haviam sobrado depois do carro passar por entre elas. O carro havia deslizado para fora da estrada bem uns 15 metros. Ela estava ensopada e a escuridão era quase total, se guiava em direção a iluminação da estrada usando os postes como referência. A lua não estava no céu, não que fizesse diferença. A chuva continuava muito forte e as nuvens a cobririam de qualquer forma. Finalmente chegou à estrada. Correu pra baixo de um dos postes de iluminação e, apesar dos olhas marejados pela água que corria por cima deles, começou a prestar atenção em si para ver se estava sangrando em algum lugar. “Incrível”, estava inteira, sem nenhum arranhão ou dor no corpo. Talvez depois, quando a adrenalina fosse embora, sentisse as dores, mas agora, pelo menos, estava tudo bem. Depois que o susto passou e estava começando a amaldiçoar a sua sorte percebeu um pequeno abrigo que deveria servir como parada de ônibus do outro lado da estrada. Não teve dúvidas, correu para lá. Nem precisou olhar para os lados, a estrada estava deserta, sem nenhuma viva alma. Haveria de passar um ônibus mais cedo ou mais tarde. Pelas suas contas deveriam ser, ainda, umas nove horas da noite. Passaria algum, disso tinha certeza, só torcia para que não demorasse muito. Voltaria para Santa Cruz, ligaria para um guincho e pediria que viessem buscar seu carro, que nem estava todo pago ainda. Não, antes disso tomaria um banho. “Hummm, banho... Bem quente...” pensou com satisfação.
Quando menos esperava, finalmente, apareceu um ônibus. Ela deu sinal, insistentemente, para que parasse. O veiculo acabou passando direto. “Poxa, acho que ele não me viu, droga...”, falou bem alto dessa vez. Teve vontade de falar alguns palavrões, mas se conteve. Ela nunca dizia palavrões e, apesar da situação, não iria começar agora.
A chuva não dava sinal que iria passar. Pensou novamente no banho, este pareceu ainda mais atraente agora. No momento trocaria qualquer coisa por um banho quente. Principalmente agora que o frio estava aumentando. “Ainda bem que é verão, se fosse inverno...” chegou a sentir os efeitos do frio só de pensar nisso. Notou faróis de carro vindo ao longe, sempre tivera por norma nunca aceitar caronas de estranhos, mas não estava em condições de agir normalmente. E talvez este nem parasse. O medo era mútuo, tanto de quem dava quanto de quem pedia uma carona, ainda mais a noite. Por fim arriscou e começou a acenar.
O carro não diminuiu a velocidade, como ela temia. Já estava se acostumando com a idéia de esperar por mais algumas horas quando ouviu uma buzina. Olhos para trás e viu que o carro havia parado mais a frente. Continuava buzinando de forma rítmica e piscava os faros na mesma cadência. Então ela correu em direção ao carro. “Que seja uma mulher ou um velho... Por favor...” orava enquanto corria. Ao chegar perto do carro a porta foi aberta e ela entrou bem rápido, fechando a porta atrás de si.
- Oi minha jovem, que chuva, heim? A senhorita está indo pra onde? – para surpresa, e conforto de Alice, quem acabara de falar era um velhinho, bem simpático por sinal. “Graças a Deus...”, sentindo-se aliviada, então respondeu.
- Muito obrigada por parar senhor. Meu nome é Alice, sofri um acidente...- começou a falar de forma rápida o que fez o velho corta-la.
-Calma minha jovem, eu me chamo Pedro.- falou enquanto oferecia sua mão para cumprimenta-la. – Alice, não é? Belo nome. Vou levá-la para Santa Cruz. Pela sua cara deve ter passado um susto e tanto. Já passou... – falava de uma forma tão natural que tranqüilizou Alice.
- Desculpe senhor, é o nervosismo. - se expressava de forma mais calma dessa vez. - Eu estava indo para Palmital quando perdi o controle do carro. Graças a Deus estou bem. Obrigada pela carona.
- Está vendo como é melhor se acalmar? Tenho uma toalha no banco de trás, pegue-a e se enxugue. – dizia ele enquanto ligava o carro. – Você ia pra Palmital, numa chuva dessas fazer o quê? – perguntou sorrindo.
- Não, quando eu saí de casa não estava chovendo. – se surpreedeu ao perceber que estava sorrindo também. – Eu sou artista plástica e estava indo resolver um problema com algumas peças minhas numa loja da cidade. – completou enquanto se enxugava.
- De noite? Deve ser um baita problema. - começou a rir do que falara, de tal forma que Alice riu também.
- E não é? Foi burrice mesmo. – começou a pensar no que iria resolver, realmente não poderia ter esperado.
- E o senhor? Está viajando pra onde? – foi a vez de Alice perguntar.
- Eu sou representante e estou resolvendo um problema aqui na região. E este tem que ser à noite, mocinha. Antes que a senhorita zombe de mim. -falou em tom de piada.
- Não, isso nunca passou pela minha cabeça. – isso realmente tinha passado pela cabeça dela, mas o velho a impediu antes que ela comentasse.
- Olhe, tem uma lanchonete logo ali. Quer tomar um café? A senhorita está gelada e um café lhe iria fazer bem. – falou apontando para uma lanchonete de posto de combustível.
- Acho que sim, obrigada, senhor. – de repente, passando instintivamente a mão pelo corpo notou que havia esquecido a bolsa e a carteira no carro...
- Tudo bem senhorita, eu pago... - afirmou, como se conseguisse ler seus pensamentos. – só que pare de chamar de senhor. Meu nome é Pedro.
- Só se o senh... Você... Me chamar de Alice. Senhorita é um pouco demais. - deixou escapar para sua surpresa. - Tenho trinta e seis.
-Combinado. – completou o velho sorrindo.
A chuva continuava e o velho estacionou o mais perto possível da lanchonete. Alice abriu a porta do carro e correu diretamente para a porta, usando a toalha para se proteger. “Bem que um café quente faria bem.”, pensou já chegando à porta, com o velho logo atrás.
A lanchonete estava vazia, com exceção do atendente. Este deveria ter pouco mais de 18, ainda não havia saído da fase das espinhas. Quando ia pediu um café ao jovem, Pedro a cortou.
- Alice, vá se sentar que eu pego os cafés.
Ao ouvir isso, Alice nem pensou duas vezes, olhou em volta e escolheu uma mesa cuja cadeira ficava bem atrás da geladeira. “Lá deve estar quente. Se for igual à geladeira lá de casa, ali deve estar um forno.”, pensou consigo já caminhando em direção a ela.
Após se sentar pôde finalmente reparar no seu salvador, não tinha notado antes por causa da pouca iluminação do carro, mas ele parecia conhecido, tinha certeza disso. Aquele rosto lhe era muito familiar. Essa sensação só aumentou enquanto ele seguia em direção à mesa segurando 2 xícaras fumegantes. Ao chegar à mesa Pedro colocou uma xícara na frente dela, que foi imediatamente segurada para esquentar as mãos. Pos a outra em frente à cadeira vazia e finalmente se sentou. Alice não se conteve e acabou perguntando.
- Eu não te conheço de algum lugar?
- Minha jovem, eu sou um velho de 70 anos, todos os velhos se parecem. -respondeu enquanto levava a xícara à boca. Sorveu um pouco e depois continuou.
- Tenho um rosto muito comum. Mas não vamos falar de mim, vamos falar de você. O que fez uma jovem tão bonita sair de casa numa noite chuvosa e pegar a estrada para ir à outra cidade?- completou em tom de brincadeira.
- Olhe, eu já falei que não estava chovendo quando eu saí... – pausou para tomar um gole. -... Se eu soubesse não teria saído, fui para Palmital resolver uns proble...
- Problemas. – Completou o velho, como se estivesse sem paciência de continuar ouvindo.
- Isso você já disse... – foi a vez dele beber. – Não creio que uma situação dessas fizesse você sair de noite, sem contar que não sabe dirigir direito e...
Esses comentários a deixaram surpresa.
- Como você sabe que eu não sei dirigir direito? – havia levantado a voz sem saber o porquê. – E agora me dou conta. Como sabia que eu ia pra Santa Cruz? – continuou cada vez mais alto.
- Calma Alice, me perdoe, eu não quis te aborrecer. Beba seu café. - completou Pedro falando tranquilamente para acalmá-la.
- Vou ao banheiro. – falou Alice levantando-se. Deu uma pausa e depois completou. – Desculpe por ter gritado. Acho que estou nervosa. - deu as costas e seguiu para o banheiro.
Enquanto seguia em direção a porta com o velho símbolo que indicava que aquele espaço era destinado às mulheres, ia pensando no que o velho lhe dissera. Ele estava certo. Não fora uma situação qualquer. Sua vida seria decidida essa noite. Ficara quieta tempo demais. Não tinha 36 e sim 40, embora nunca assumisse por um ridículo capricho feminino. Não tinha mais família, sua mãe havia morrido no ano anterior a deixando só. Há quase um ano não saia com ninguém, filhos então... Parecia ser algo impossível para ela. “O que me fizera ir para outra cidade no meio da noite?”, a resposta era simples. Iria matar. Matar a desgraçada que havia desistido do pedido encomendado. Pedido este que ela tinha demorado mais de dois meses para fazer e que a miserável, num simples telefonema jogou tudo por terra. “Quem ela pensava que era?”, Alice decidira deixar de ficar quieta e finalmente iria dar o troco. Começaria com Janete da galeria e depois o imbecil do Jacques. Que a havia humilhado deixando como lembrança apenas a palavra “frígida” para lembrar do relacionamento. Durante toda a sua vida tinham a feito de boba, parte do motivo era o jeito que sua mãe a criara. Sempre dependente e incapaz de fazer algo sem pedir permissão antes. Estava cheia de ser ninguém. Estava sentindo-se a criatura mais inútil do mundo. Segurou um choro que finalmente não veio e entrou.
Dentro do banheiro se olhou no espelho. Apesar de sujo ele refletia seu reflexo muito bem. Não era bonita, já havia se acostumado com essa idéia, mas também não era feia. Quando se maquiava e se vestia adequadamente era muito paquerada. “Se não fosse a timidez.”, lavou o rosto e começou a decidir o que faria daquele momento em diante.
Não passou mais de cinco minutos no banheiro, gastou todo esse tempo pensando no que iria fazer e chegou a uma simples conclusão. Não mataria mais ninguém. De certa forma foi sorte ter sofrido o acidente, isso a impediu de fazer besteira. Ela iria matar Janete, disso tinha certeza, mas pra que? Pra ser presa? Não era uma assassina profissional, como nos filmes. Teria deixado com certeza alguma pista contra si. Estava sorrindo e se sentindo tão leve. Afinal, ninguém tinha culpa da sua condição, só ela mesma. Ao chegar à mesa sorriu para Pedro.
-Então, está melhor Alice? – perguntou Pedro, estranhamente de forma bem jovial.
- Sim estou, obrigada, muito obrigada por tudo. Está tudo claro agora. Muito obrigada mesmo. – respondeu sorrindo.
- Fico feliz que tenha desistido da idéia de matar alguém. – Pedro falou de repente, fazendo Alice ficar assustada e confusa com a afirmação.
- O que você está dizendo? – perguntou Alice, já sentindo a voz lhe faltando.
- Ora Alice, eu te conheço melhor do que você mesma. Agora fique quieta e deixe-me falar. – assim que Pedro falou isso Alice não sentiu mais vontade nenhuma de se mexer ou falar. Não estava paralisada, simplesmente perdera a vontade de mexer o corpo. Por algum motivo estava tão interessada no que o velho iria falar que ficaria ouvindo por todo o tempo que fosse necessário.
- Alice, querida Alice. Você sabia que sua mãe queria te abortar? Não? Sua mãe nunca lhe contou isso. Eu não deixei que acontecesse. Fiz questão de segurar você no ventre dela até que ela mudasse de idéia. Mesmo com as quantidades cavalares de remédios e chás abortivos tomados eu sempre vigiei você. – tomou o último gole de café, que estranhamente ainda fumegava. Olhou para Alice com ternura, então continuou.
-Vieram as três tentativas de suicídio, nessas vezes você quase conseguiu morrer e eu te deixei aqui porque sabia que me seria útil. Cara Alice eu tenho uma proposta pra te fazer. Como já deve ter percebido eu não sou humana, nem homem eu sou, pra falar a verdade nem mulher. Estou com os homens desde o início dos tempos e agora estou cansada. Preciso de uma substituta e tenho certeza que você serve. Você tem duas opções... - então começou a explicar. Enquanto falava olhou fixamente para os olhos de Alice. Ela devolveu o olhar e então percebeu uma coisa que não havia notado antes. Os olhos dele. Na idade que eles aparentavam. Olhando, sem piscar, nos olhos daquele velho ela enxergou a eternidade.
A explicação durou quase meia hora, realmente Alice não tinha muito o que escolher. Havia morrido no acidente. Seu corpo estava esmagado dentro do carro. Ela era um apenas uma projeção de como se lembrava ser. Não poderia voltar para a sua antiga vida pois não tinha mais uma. Vida, palavra engraçada, pode significar tanto tudo quanto nada. No fim ela aceitou a proposta. Pedro havia lhe desejado boa sorte e passado todo o conhecimento adquirido durante uma infinidade de séculos num simples aperto de mão. Ela não era mais Alice, agora era algo mais. Sentiu pena da raça humana, tão fugaz em sua existência.
Não estava somente ali, mas também em incontáveis lugares por todo o Universo. Estava acompanhando em sua última viagem um pequenino ser que habitava um planeta no outro lado da galáxia. Estava levando no colo uma criança que acabara de morrer no berço. Alentava um coitado que havia se matado e que agora queria saber o motivo da dor não ter passado. Eram bilhões de Alices no outro lado do universo consolando uma raça, agora extinta, que havia perecido junto com seu sol. Era ela em todos esses lugares. E ao mesmo tempo não era. Todos poderiam descansar em seus braços após uma exaustiva vida de sucessos ou fracassos. E no final de tudo, quando a última estrela se apagasse ela estaria ali para apagar a luz e fechar a porta. Ela era a morte.
Num pensamento as suas roupas ficaram secas. Finalmente descobrira de onde conhecia o velho, aliás, a imagem escolhida por ele. Ele era o velho idoso que estampava a marca de aveia que sua mãe preparava todas as manhãs quando Alice era criança. Sorriu pela ironia. A imagem foi escolhida para tranqüilizá-la. Algo que a acalmasse. Dera certo. Alice estava mais viva do que nunca. Sentia que esperara por isso a vida toda.
Calmamente andou em direção ao balcão, na sua mão apareceu uma nota de 50. O rapaz não se lembraria do velho, para todos os efeitos o velho sempre fora Alice. Ele só se lembraria de ter servido os cafés para ela. Ao ficar de frente ao atendente ela lhe ofereceu a nota.
- Fique com o troco. - falou sorrindo para o rapaz.
- Muito obrigado, madame. Volte quando quiser. – respondeu o rapaz já pensando no que faria com a gorjeta.
Elegantemente ela se virou e olhou para ele com ternura. Sorriu e então falou.
- Claro Guilherme, eu voltarei. Pode esperar. – depois de falar saiu pela porta para o ar da noite.
Após a mulher sair Guilherme foi até a porta para trancá-la. Não poderia expulsar uma mulher sozinha numa chuvarada daquelas. Só estava esperando ela sair. “Mulher estranha. Mas muito bonita”, “Como será que ela sabia meu nome?” – estava perdido em pensamentos. O último deles veio antes de apagar as luzes e sair pela porta dos fundos, “Espero que ela volte mesmo.”, e ele tinha certeza, bem lá no fundo, que a veria de novo algum dia.


FIM


Este conto tem dona, o nome dela é ... Alice (rss). A visitante de número 3000 deste Blog. Espero que tenha gostado. Queria escrever um drama, mas só saiu assim. Acho que só sei escrever coisas esquisitas... Abração...
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