22 de mar de 2007

INCERTEZA - CONTO



INCERTEZA



Pode parecer loucura, eu mesmo não acredito no ocorrido mesmo passado mais de 20 anos Todo esse tempo só me passou pela cabeça a idéia de que tudo poderia ter acabado de forma diferente, infelizmente isso é uma coisa que nunca poderei ter certeza alguma e, o que é pior, tenho que aprender a conviver com isso, seja tão difícil quanto for.
Trabalhava como policial rodoviário desde a época do vestibular, aquele no qual não consegui passar. Naquele momento me pareceu ser uma boa idéia, nunca quis ser médico como meu pai e, de certa forma, ter sido reprovado foi um alívio para mim, era um sinal para não seguir essa carreira. Junte isso a minha paixão de infância, o Vigilante Rodoviário e seu fiel cão Lobo e você terá um policial quase pronto.
Era a metade dos anos 70 e naquela época a farda da corporação impunha respeito, seja por um motivo ou outro. Já trabalhava há alguns anos e estava próximo o dia da minha promoção . Apesar de militar, não concordava com o jeito que o país estava sendo conduzido na época e, sendo patrulheiro, me distanciava das coisas que outros membros da corporação eram obrigados a fazer em outros lugares. Bem, isso era uma coisa que só eu sabia, naquela época você não ia muito longe discordando dos superiores. Meu pai dizia que o país um dia mudaria e que tudo voltaria ao normal, graças a Deus, suas previsões se mostrariam como certas.
Estávamos na primavera e a estrada que eu patrulhava era muito arborizada, dada a sua altura, e era também muito sinuosa, acho que os engenheiros só conseguiram fazer a estrada assim, contornando a serra. A vista era bonita, mas o perigo constante, qualquer deslize e o motorista poderia cair em qualquer das ribanceiras, mas, nunca me preocupei muito com isso, a estrada era pouco usada. O que era para ser uma ligação com o resto do país acabou se tornando um atalho para os moradores das cidades vizinhas. Só a usava quem a conhecia e isso impedia os possíveis acidentes. Para se ter uma idéia havia dias que eu não via viva alma no trecho da estrada que estava sobre minha responsabilidade. Era meio maçante, mas eu gostava do trabalho. Pouco perigo (nunca havia usado a minha arma) e ar puro.
Bem vou voltar à história.
Naquele dia em particular estava com uma tremenda ressaca, no dia anterior havia ocorrido a festa de noivado de um grande amigo meu, ele abriu uma caixa de uísque e serviu aos convidados, como era bebida importada (chamávamos de muamba) e de boa qualidade bebemos até não agüentar mais, como não estava acostumado deu no que deu.
Estava com muita dor de cabeça e agradecendo a Deus meu emprego, tinha a idéia de esconder a moto atrás de uma árvore e dar uma cochilada, nunca tinha tido coragem para fazer isso, mas também nunca tinha acontecido nada que me impedisse, então, o que poderia acontecer no meu plantão? Bem, naquele dia, algo aconteceu.
Tinha acabado de escolher o lugar ideal, bem na parte mais alta da estrada, no local havia algumas árvores e esse seria o local ideal para esconder minha moto e tirar a minha decidida soneca, desci da moto e estava tirando meu capacete quando vi, virando a curva em grande velocidade um fusca, isso por si só já seria ruim e, para piorar, uns 50 metros atrás vinha também uma moto da polícia em perseguição, estranhamente com a sirene desligada. Nessa hora ele deve ter me visto, pois, como se quisesse chamar a minha atenção, ligou a sirene para me avisar que tinha alguma coisa errada. Não tive dúvidas, coloquei de volta o capacete, subi na moto, liguei a sirene e fui atrás deles. Tinha que ser justo naquele dia? O engraçado é que a minha cabeça parou de doer na mesma hora, deve ter sido a adrenalina. Nunca tinha participado de nenhuma perseguição antes. Mas, mesmo assim, sabia como proceder. Consegui passar o meu colega e emparelhar com o carro. O plano era o seguinte: eu emparelharia com o carro e a outra moto ficaria atrás dela e ficaríamos assim até que o motorista resolvesse parar, se isso não acontecesse tentaríamos acertas alguns tiros nos pneus do carro e se mesmo assim o carro não parasse pararíamos em algum lugar e chamaríamos reforços da central, nesses casos um carro intimida muito mais que uma moto.
Só que aconteceu algo que me fez mudar de planos. Ao tentar ver quem estava dirigindo, notei que havia duas pessoas na parte da frente do carro, um homem e uma menina. Dei um grito pedindo para que ele parasse e de nada adiantou.
Como eu disse anteriormente, essas estradas eram muito perigosas para quem não as conheciam e esse era o caso daquele motorista, se o idiota não diminuísse a velocidade acabaria acontecendo algum acidente grave. Durante segundos que pareceram minutos tentei, em vão, convencê-lo a parar. Infelizmente minhas tentativas não foram o bastante e o que eu temia aconteceu realmente O motorista perdeu o controle, justo numa curva das mais perigosas e acabou caindo numa das ribanceiras. Parei a moto perto ao local da queda e larguei a moto de qualquer jeito, uma angustia tomou conta de mim. Comecei a chorar. Imaginei aquela menina, tão novinha, morta ainda criança num estúpido acidente de carro. Minha esposa e eu sempre quisemos ter uma garotinha e a morte de uma me angustiava, coloquei pra fora tudo o que havia comido pela manhã e tomei coragem para descer a ribanceira. Virei para procurar o meu amigo de farda e percebi que o miserável havia sumido, com certeza com receio do relatório que teríamos que fazer para justificar o ocorrido. Infelizmente, na correria, eu não tinha percebido seu número de registro e não poderia dizer quem tinha sido, mas ele não escaparia assim, por Deus, eu acharia aquele covarde e lhe diria poucas e boas, com a minha promoção tão próxima ele tinha conseguido um inimigo que transformaria sua vida profissional num inferno. Respirei fundo e me pus a descer, a principio não havia sinal nenhum do carro e, incrível, todo o mato naquela direção estava intacto, ninguém diria que havia passado um carro por ali, isso naquela hora não chamou muito a minha atenção e à medida que eu ia descendo fui pensando em como a vida é engraçada, aquele era o ponto mais alto e uns bons 18 metros de queda, se o carro tivesse derrapado para o outro lado ele só teria batido numa árvore e talvez não tivesse ocorrido nenhuma morte, quando parei de me perder em pensamentos outra coisa começou a me preocupar... Cadê o carro?
O carro não estava lá, naquele local não tinha mato suficiente para cobrir um fusca, não senti cheiro de gasolina e nenhum marca de fumaça, enfim, nenhum sinal de acidente. Naquele momento fiquei todo arrepiado, isso não poderia estar acontecendo, passe meia hora procurando e por fim desisti. Corri daquele lugar sem olhar pra trás. Foi tremendo que cheguei à minha moto, na estrada nenhum sinal de derrapagem. Eu tinha mesmo enlouquecido. Voltei para a central. Não me lembro da desculpa que dei, só sei que naquele dia não pensei em outra coisa. Alucinação, ou seja lá o que tenha sido, nunca falei daquilo com ninguém. Talvez o apresentador do Além da Imaginação me compreendesse, mas meus amigos dificilmente. Nas 3 semanas seguintes tentei esquecer o ocorrido, e estava quase conseguindo, até que algo aconteceu.
Estas 3 semanas foram de total mudança para mim. Tinha decidido mudar a minha vida, parei de beber (depois do ocorrido bebi apenas mais uma única vez), falei com meu tio que tinha um escritório de advocacia no Rio e ele me deu uma idéia; ser advogado. Eu não seria mais um “Vigilante Rodoviário”, mas estaria do lado da lei. Não tinha ainda 30 anos e, se tudo desse certo, o vestibular e a faculdade, eu me formaria advogado antes dos 35, até lá adquiriria experiência prática no escritório do meu tio, ele, inclusive, já tinha me garantido o emprego. Minha esposa havia ficado feliz, ela nunca gostou da idéia de eu ser policial.
Aquela era a minha última semana, o bota fora seria na sexta-feira, me mudaria para o Rio na próxima semana e após o vestibular, minha esposa iria para lá também. Nunca descobri quem tinha sido o outro motociclista (se é que ele, algum dia, havia existido) e estava feliz em ir embora daquele lugar. E o clima da região recentemente havia mudado, como se para brindar a minha decisão.
Estava acabando meu café no bar na beira da estrada, o bar no qual sempre comia quando me atrasava para o serviço. Ele ficava perto da minha área de trabalho, o que era muito cômodo. Perdido em pensamentos, pensando no nome que daríamos ao bebê que viria (minha esposa, Luiza estava grávida) e em como seria minha vida longe de minha esposa, acabei vendo a garotinha mais linda do mundo, deveria ter uns 7 anos e estava de mãos dadas com sua mãe. Não tive dúvidas, peguei uma das barras de chocolate que havia comprado e quando ela passou por mim ofereci a ela. Ela me olhou desconfiada e me fitou durante alguns segundos enquanto olhava também para o chocolate a sua frente. - Pegue querida, o chocolate do Seu polícia. -Disse a sua mãe. A garota pegou o chocolate e rapidamente virou as costas para mim. –Como é que se fala?- Repreendeu-a sua mãe. –Obrigada!- disse, timidamente, a garotinha, virando-se sem me olhar. A mãe sorriu para mim, agradecendo, e saiu para o estacionamento.
Ao me dirigir ao caixa para pagar, um homem esbarrou em mim, era grisalho e o rosto não me era estranho, talvez fosse algum amigo de papai, ou algum atendente de loja da cidade, só sei que era aquele tipo de rosto do qual nos lembramos e não sabemos de onde, como não fez menção de me cumprimentar deixei pra lá. A fila deveria ter uma cinco pessoas, eu não estava com pressa, caia uma garoa fina e eu odiava trabalhar com aquele tempo, mas a lembrança de que dali a uma semana estaria no Rio me confortava muito.
Olhando para fora, através da porta de vidro, vi a mãe da garotinha acenando para alguém, como se tivesse se despedindo, isso me fez comprar outra barra de chocolate para dar à menina, quando sai fui falar com a mãe. - Senhora. -Disse eu. -Entregue esse chocolate para sua filha.
- Não, senhor, ela não é minha filha. Ela é minha sobrinha. Meu irmão está de férias do jornal em que trabalha e passaram por aqui para me visitar. Mas mesmo assim, muito obrigada. - Respondeu sorrindo a mulher.
Foi ai que olhei para a direção a qual ela estava acenando. Um fusca branco, igual aquele... Deus, fusca branco, uma garotinha e um homem, de repente me lembrei de onde tinha visto aquele homem. Fiquei parado por alguns segundos tentando me recompor, novamente aquele arrepio me pegou. Seria possível...?
Não sei o que me deu, corri para a minha moto e sai atrás do carro o mais rápido que pude. Novamente pensei: seria possível? E se fosse? Tudo o que eu tinha que fazer era parar o carro e guia-lo através da estrada até que a área perigosa passasse, e quem não gostaria de ter um policial como segurança? Quando alcancei o fusca buzinei e fiz sinal para que parasse. Qual não foi a minha surpresa ao notar que ao invés de parar o carro o homem acelerou e começou a fugir de mim. O que ele tinha? Eu não havia feito nada, só pedido para que ele parasse e eu tinha que pará-lo de qualquer jeito. Tinha medo de ligar a sirene e assustá-lo mais ainda, fiquei assim, correndo atrás por quase 4 minutos até que notei um colega com a moto parada, liguei a sirene para que ele me ajudasse. Sorte que ele percebeu e começou a nos seguir. Ele sabia o que fazia, fez exatamente como mandava o manual, ele emparelhou no carro e começou a mandar o fusca parar... Deus, não...
Eu reconheci aquela moto, era a MINHA moto, aquele outro motorista era eu, com ressaca e uma dor de cabeça que havia sumido quando iniciou a perseguição. Que desceria a ribanceira e não veria carro algum, que decidiria mudar para o Rio e se tornar advogado, que passaria os próximos dias me procurando, sem saber se o que tinha acontecido era alucinação e sem saber que o outro motorista era ELE mesmo...
Comecei a pensar em muitas coisas, teria eu ficado finalmente louco? Aquele carro existia mesmo? Infelizmente minha pergunta não tardou a ser respondida.
Foi bem como me lembrava, o carro perdeu o controle e caiu a ribanceira, a mesma ribanceira de antes, meu outro eu sumiu e a mim sobrou a tarefa de averiguar o acidente. Tinha esperança de que o mato novamente estivesse intacto, mas ela não durou muito, lá embaixo estava o fusca, todo destruído pela queda, chorei, pela segunda vez. Desta vez liguei para a central e pedi ajuda, desci correndo até o fusca, e como temia estavam mortos, pai e filha. Fiquei em choque... Só fui acordar no hospital, no dia seguinte.
O nome do homem era Hamilton, ele estava sendo procurado por subversão, sua mulher havia sido presa e ele tinha fugido com sua filhinha, deve ter ficado com medo de ser preso quando comecei a persegui-lo. Mal sabia o coitado que eu só queria ajudar. Mesmo se eu soubesse quem ele era nunca teria o prendido, ainda mais com uma criança.
Naquela noite bebi pela última vez na minha vida, e no meio da madrugada, chorando, veio a pergunta: e se eu não tivesse perseguido-o? Afinal o pobre não tinha feito nada, não havia motivo para perseguição, de certa forma EU os matei. Essa incerteza é a minha maldição. Todo esse tempo guardei essa história para mim. Afinal quem acreditaria? Nem mesmo eu acredito. Mesmo hoje, com minha filha, Adriana, já grande eu, às vezes, me pego pensando se tudo poderia ter sido diferente. Adriana, minha filha querida, que tem o mesmo nome de uma garotinha que morreu há muitos anos atrás num trágico acidente de carro.
FIM
Postar um comentário

22 de mar de 2007

INCERTEZA - CONTO



INCERTEZA



Pode parecer loucura, eu mesmo não acredito no ocorrido mesmo passado mais de 20 anos Todo esse tempo só me passou pela cabeça a idéia de que tudo poderia ter acabado de forma diferente, infelizmente isso é uma coisa que nunca poderei ter certeza alguma e, o que é pior, tenho que aprender a conviver com isso, seja tão difícil quanto for.
Trabalhava como policial rodoviário desde a época do vestibular, aquele no qual não consegui passar. Naquele momento me pareceu ser uma boa idéia, nunca quis ser médico como meu pai e, de certa forma, ter sido reprovado foi um alívio para mim, era um sinal para não seguir essa carreira. Junte isso a minha paixão de infância, o Vigilante Rodoviário e seu fiel cão Lobo e você terá um policial quase pronto.
Era a metade dos anos 70 e naquela época a farda da corporação impunha respeito, seja por um motivo ou outro. Já trabalhava há alguns anos e estava próximo o dia da minha promoção . Apesar de militar, não concordava com o jeito que o país estava sendo conduzido na época e, sendo patrulheiro, me distanciava das coisas que outros membros da corporação eram obrigados a fazer em outros lugares. Bem, isso era uma coisa que só eu sabia, naquela época você não ia muito longe discordando dos superiores. Meu pai dizia que o país um dia mudaria e que tudo voltaria ao normal, graças a Deus, suas previsões se mostrariam como certas.
Estávamos na primavera e a estrada que eu patrulhava era muito arborizada, dada a sua altura, e era também muito sinuosa, acho que os engenheiros só conseguiram fazer a estrada assim, contornando a serra. A vista era bonita, mas o perigo constante, qualquer deslize e o motorista poderia cair em qualquer das ribanceiras, mas, nunca me preocupei muito com isso, a estrada era pouco usada. O que era para ser uma ligação com o resto do país acabou se tornando um atalho para os moradores das cidades vizinhas. Só a usava quem a conhecia e isso impedia os possíveis acidentes. Para se ter uma idéia havia dias que eu não via viva alma no trecho da estrada que estava sobre minha responsabilidade. Era meio maçante, mas eu gostava do trabalho. Pouco perigo (nunca havia usado a minha arma) e ar puro.
Bem vou voltar à história.
Naquele dia em particular estava com uma tremenda ressaca, no dia anterior havia ocorrido a festa de noivado de um grande amigo meu, ele abriu uma caixa de uísque e serviu aos convidados, como era bebida importada (chamávamos de muamba) e de boa qualidade bebemos até não agüentar mais, como não estava acostumado deu no que deu.
Estava com muita dor de cabeça e agradecendo a Deus meu emprego, tinha a idéia de esconder a moto atrás de uma árvore e dar uma cochilada, nunca tinha tido coragem para fazer isso, mas também nunca tinha acontecido nada que me impedisse, então, o que poderia acontecer no meu plantão? Bem, naquele dia, algo aconteceu.
Tinha acabado de escolher o lugar ideal, bem na parte mais alta da estrada, no local havia algumas árvores e esse seria o local ideal para esconder minha moto e tirar a minha decidida soneca, desci da moto e estava tirando meu capacete quando vi, virando a curva em grande velocidade um fusca, isso por si só já seria ruim e, para piorar, uns 50 metros atrás vinha também uma moto da polícia em perseguição, estranhamente com a sirene desligada. Nessa hora ele deve ter me visto, pois, como se quisesse chamar a minha atenção, ligou a sirene para me avisar que tinha alguma coisa errada. Não tive dúvidas, coloquei de volta o capacete, subi na moto, liguei a sirene e fui atrás deles. Tinha que ser justo naquele dia? O engraçado é que a minha cabeça parou de doer na mesma hora, deve ter sido a adrenalina. Nunca tinha participado de nenhuma perseguição antes. Mas, mesmo assim, sabia como proceder. Consegui passar o meu colega e emparelhar com o carro. O plano era o seguinte: eu emparelharia com o carro e a outra moto ficaria atrás dela e ficaríamos assim até que o motorista resolvesse parar, se isso não acontecesse tentaríamos acertas alguns tiros nos pneus do carro e se mesmo assim o carro não parasse pararíamos em algum lugar e chamaríamos reforços da central, nesses casos um carro intimida muito mais que uma moto.
Só que aconteceu algo que me fez mudar de planos. Ao tentar ver quem estava dirigindo, notei que havia duas pessoas na parte da frente do carro, um homem e uma menina. Dei um grito pedindo para que ele parasse e de nada adiantou.
Como eu disse anteriormente, essas estradas eram muito perigosas para quem não as conheciam e esse era o caso daquele motorista, se o idiota não diminuísse a velocidade acabaria acontecendo algum acidente grave. Durante segundos que pareceram minutos tentei, em vão, convencê-lo a parar. Infelizmente minhas tentativas não foram o bastante e o que eu temia aconteceu realmente O motorista perdeu o controle, justo numa curva das mais perigosas e acabou caindo numa das ribanceiras. Parei a moto perto ao local da queda e larguei a moto de qualquer jeito, uma angustia tomou conta de mim. Comecei a chorar. Imaginei aquela menina, tão novinha, morta ainda criança num estúpido acidente de carro. Minha esposa e eu sempre quisemos ter uma garotinha e a morte de uma me angustiava, coloquei pra fora tudo o que havia comido pela manhã e tomei coragem para descer a ribanceira. Virei para procurar o meu amigo de farda e percebi que o miserável havia sumido, com certeza com receio do relatório que teríamos que fazer para justificar o ocorrido. Infelizmente, na correria, eu não tinha percebido seu número de registro e não poderia dizer quem tinha sido, mas ele não escaparia assim, por Deus, eu acharia aquele covarde e lhe diria poucas e boas, com a minha promoção tão próxima ele tinha conseguido um inimigo que transformaria sua vida profissional num inferno. Respirei fundo e me pus a descer, a principio não havia sinal nenhum do carro e, incrível, todo o mato naquela direção estava intacto, ninguém diria que havia passado um carro por ali, isso naquela hora não chamou muito a minha atenção e à medida que eu ia descendo fui pensando em como a vida é engraçada, aquele era o ponto mais alto e uns bons 18 metros de queda, se o carro tivesse derrapado para o outro lado ele só teria batido numa árvore e talvez não tivesse ocorrido nenhuma morte, quando parei de me perder em pensamentos outra coisa começou a me preocupar... Cadê o carro?
O carro não estava lá, naquele local não tinha mato suficiente para cobrir um fusca, não senti cheiro de gasolina e nenhum marca de fumaça, enfim, nenhum sinal de acidente. Naquele momento fiquei todo arrepiado, isso não poderia estar acontecendo, passe meia hora procurando e por fim desisti. Corri daquele lugar sem olhar pra trás. Foi tremendo que cheguei à minha moto, na estrada nenhum sinal de derrapagem. Eu tinha mesmo enlouquecido. Voltei para a central. Não me lembro da desculpa que dei, só sei que naquele dia não pensei em outra coisa. Alucinação, ou seja lá o que tenha sido, nunca falei daquilo com ninguém. Talvez o apresentador do Além da Imaginação me compreendesse, mas meus amigos dificilmente. Nas 3 semanas seguintes tentei esquecer o ocorrido, e estava quase conseguindo, até que algo aconteceu.
Estas 3 semanas foram de total mudança para mim. Tinha decidido mudar a minha vida, parei de beber (depois do ocorrido bebi apenas mais uma única vez), falei com meu tio que tinha um escritório de advocacia no Rio e ele me deu uma idéia; ser advogado. Eu não seria mais um “Vigilante Rodoviário”, mas estaria do lado da lei. Não tinha ainda 30 anos e, se tudo desse certo, o vestibular e a faculdade, eu me formaria advogado antes dos 35, até lá adquiriria experiência prática no escritório do meu tio, ele, inclusive, já tinha me garantido o emprego. Minha esposa havia ficado feliz, ela nunca gostou da idéia de eu ser policial.
Aquela era a minha última semana, o bota fora seria na sexta-feira, me mudaria para o Rio na próxima semana e após o vestibular, minha esposa iria para lá também. Nunca descobri quem tinha sido o outro motociclista (se é que ele, algum dia, havia existido) e estava feliz em ir embora daquele lugar. E o clima da região recentemente havia mudado, como se para brindar a minha decisão.
Estava acabando meu café no bar na beira da estrada, o bar no qual sempre comia quando me atrasava para o serviço. Ele ficava perto da minha área de trabalho, o que era muito cômodo. Perdido em pensamentos, pensando no nome que daríamos ao bebê que viria (minha esposa, Luiza estava grávida) e em como seria minha vida longe de minha esposa, acabei vendo a garotinha mais linda do mundo, deveria ter uns 7 anos e estava de mãos dadas com sua mãe. Não tive dúvidas, peguei uma das barras de chocolate que havia comprado e quando ela passou por mim ofereci a ela. Ela me olhou desconfiada e me fitou durante alguns segundos enquanto olhava também para o chocolate a sua frente. - Pegue querida, o chocolate do Seu polícia. -Disse a sua mãe. A garota pegou o chocolate e rapidamente virou as costas para mim. –Como é que se fala?- Repreendeu-a sua mãe. –Obrigada!- disse, timidamente, a garotinha, virando-se sem me olhar. A mãe sorriu para mim, agradecendo, e saiu para o estacionamento.
Ao me dirigir ao caixa para pagar, um homem esbarrou em mim, era grisalho e o rosto não me era estranho, talvez fosse algum amigo de papai, ou algum atendente de loja da cidade, só sei que era aquele tipo de rosto do qual nos lembramos e não sabemos de onde, como não fez menção de me cumprimentar deixei pra lá. A fila deveria ter uma cinco pessoas, eu não estava com pressa, caia uma garoa fina e eu odiava trabalhar com aquele tempo, mas a lembrança de que dali a uma semana estaria no Rio me confortava muito.
Olhando para fora, através da porta de vidro, vi a mãe da garotinha acenando para alguém, como se tivesse se despedindo, isso me fez comprar outra barra de chocolate para dar à menina, quando sai fui falar com a mãe. - Senhora. -Disse eu. -Entregue esse chocolate para sua filha.
- Não, senhor, ela não é minha filha. Ela é minha sobrinha. Meu irmão está de férias do jornal em que trabalha e passaram por aqui para me visitar. Mas mesmo assim, muito obrigada. - Respondeu sorrindo a mulher.
Foi ai que olhei para a direção a qual ela estava acenando. Um fusca branco, igual aquele... Deus, fusca branco, uma garotinha e um homem, de repente me lembrei de onde tinha visto aquele homem. Fiquei parado por alguns segundos tentando me recompor, novamente aquele arrepio me pegou. Seria possível...?
Não sei o que me deu, corri para a minha moto e sai atrás do carro o mais rápido que pude. Novamente pensei: seria possível? E se fosse? Tudo o que eu tinha que fazer era parar o carro e guia-lo através da estrada até que a área perigosa passasse, e quem não gostaria de ter um policial como segurança? Quando alcancei o fusca buzinei e fiz sinal para que parasse. Qual não foi a minha surpresa ao notar que ao invés de parar o carro o homem acelerou e começou a fugir de mim. O que ele tinha? Eu não havia feito nada, só pedido para que ele parasse e eu tinha que pará-lo de qualquer jeito. Tinha medo de ligar a sirene e assustá-lo mais ainda, fiquei assim, correndo atrás por quase 4 minutos até que notei um colega com a moto parada, liguei a sirene para que ele me ajudasse. Sorte que ele percebeu e começou a nos seguir. Ele sabia o que fazia, fez exatamente como mandava o manual, ele emparelhou no carro e começou a mandar o fusca parar... Deus, não...
Eu reconheci aquela moto, era a MINHA moto, aquele outro motorista era eu, com ressaca e uma dor de cabeça que havia sumido quando iniciou a perseguição. Que desceria a ribanceira e não veria carro algum, que decidiria mudar para o Rio e se tornar advogado, que passaria os próximos dias me procurando, sem saber se o que tinha acontecido era alucinação e sem saber que o outro motorista era ELE mesmo...
Comecei a pensar em muitas coisas, teria eu ficado finalmente louco? Aquele carro existia mesmo? Infelizmente minha pergunta não tardou a ser respondida.
Foi bem como me lembrava, o carro perdeu o controle e caiu a ribanceira, a mesma ribanceira de antes, meu outro eu sumiu e a mim sobrou a tarefa de averiguar o acidente. Tinha esperança de que o mato novamente estivesse intacto, mas ela não durou muito, lá embaixo estava o fusca, todo destruído pela queda, chorei, pela segunda vez. Desta vez liguei para a central e pedi ajuda, desci correndo até o fusca, e como temia estavam mortos, pai e filha. Fiquei em choque... Só fui acordar no hospital, no dia seguinte.
O nome do homem era Hamilton, ele estava sendo procurado por subversão, sua mulher havia sido presa e ele tinha fugido com sua filhinha, deve ter ficado com medo de ser preso quando comecei a persegui-lo. Mal sabia o coitado que eu só queria ajudar. Mesmo se eu soubesse quem ele era nunca teria o prendido, ainda mais com uma criança.
Naquela noite bebi pela última vez na minha vida, e no meio da madrugada, chorando, veio a pergunta: e se eu não tivesse perseguido-o? Afinal o pobre não tinha feito nada, não havia motivo para perseguição, de certa forma EU os matei. Essa incerteza é a minha maldição. Todo esse tempo guardei essa história para mim. Afinal quem acreditaria? Nem mesmo eu acredito. Mesmo hoje, com minha filha, Adriana, já grande eu, às vezes, me pego pensando se tudo poderia ter sido diferente. Adriana, minha filha querida, que tem o mesmo nome de uma garotinha que morreu há muitos anos atrás num trágico acidente de carro.
FIM
Postar um comentário