21 de mar de 2007

A COLCHA DA FAMÍLIA - CONTO



A COLCHA DA FAMÍLIA

Foi naquela tarde que Zulmira, finalmente, tomou sua decisão. Decidiu por fim a humilhações e surras que seu marido lhe infligira durante os últimos anos de seu casamento.
Zulmira havia se casado nova, como era costume na região em que morou quando jovem. Mais velha de cinco filhos de uma família cujo pai era comerciante, não teve tempo para si. Parecia que havia nascido para ser ama dos menores, seu pai havia tomado a decisão de levar ao pé da letra a ordem bíblica de “ide e procriai”, de certa forma, percebeu mais tarde, foi um alívio sua mãe ter “secado”, às vezes imaginava quantos irmãos haveria de tomar conta se não fosse por isso. Infelizmente esse fato não foi bom para todos. Sua mãe começou a ser humilhada pelo seu pai. Quando bêbado era comum ele tocar no assunto, “mulher inútil” e “imprestável” eram algumas das qualidades imputadas à sua pobre mãe, no começo esses comentários não afetavam Zulmira (ela era pequena e, com essa idade, palavras são palavras), mas com o tempo, e o conhecimento do que essas palavras queriam dizer, elas a foram chateando. Mas fazer o que? Não era pra isso que as mulheres serviam? Seus irmãos não davam trégua, se eles se machucassem (os machos da família eram traquinas demais e isso acontecia seguidamente) ela era punida e quando, por qualquer motivo (maldade talvez), eles faziam alguma reclamação para seu digníssimo pai, ela acabava apanhando (o acontecido sendo verdadeiro ou não), por isso, no início, sentiu muito ódio, mas foi se acostumando. Ódio virou raiva, raiva virou rancor, rancor virou indiferença. Chegou a odiar sua mãe por tê-la colocado nessa situação ao concebê-la, e foi com dificuldade que se acostumou e agüentou firmemente por 19 anos.

Foi numa primavera que Jorge começou a freqüentar sua casa e a levar presentes para seu pai, e Zulmira só veio tomar conta da situação depois. Falando a verdade ela só percebeu do que se tratava quando seu pai entrou no seu quarto e pediu, de forma seca antes de se virar e voltar para a sala, para que ela colocasse o melhor vestido. Sua mãe, que vinha logo atrás com lágrimas nos olhos, dirigiu-se ao guarda roupa e pegou o vestido da missa.
– Minha Filha! - disse sua mãe, sem completar a frase, enquanto esticava o vestido em cima da cama.
À medida que o vestido ia sendo esticado, e desamarrotado, Zulmira começou a sentir receio. – O que está acontecendo? - perguntou para sua mãe, sem perceber que caiam lágrimas de seus olhos também. – Pra que tudo isso?
Foi olhando para o chão que sua mãe respondeu:
– Minha filhinha! Seu Jorge pediu você em casamento ao seu pai... - enquanto falava os olhos iam sendo erguidos de encontro aos de Zulmira. Naquela tarde de domingo, mãe e filha foram amigas e como cúmplices choraram pelo destino que de certa forma a deixavam realmente mais amigas que mãe e filha. Naquela tarde sua mãe lhe explicou o que era ser mulher e lhe contou o que lhe reservava o futuro, e foi naquela tarde que Zulmira descobriu (bem lá dentro, no seu íntimo) que seria mais uma mulher infeliz.

O casório foi providenciado rápido, em seis meses Zulmira já era esposa e dona de casa, seu primeiro filho estava a caminho, este providenciado numa das raras vezes que seu marido a havia tomado sóbrio. Agradecia a Deus o fato de Jorge se interessar muito mais pelas meninas do Salão de Dona Noemi do que por ela. Seu marido era sujo, bebia muito e ela tinha certeza de que se ele fosse provocado bateria nela sem pensar duas vezes, enfim, era tudo o que ela não desejava. Sentia-se traída e abandonada, percebeu que a sua vida não mudaria quando, no mês anterior, havia ido falar com seu pai sobre a sua situação, mas não adiantou muito, ele lhe disse que, uma vez casada, seu marido sabia o que era bom pra ela e afinal, disse ele, onde ela iria conseguir melhor marido do que ele? Após essa conversa ela até pensou em fugir, mas para onde? A única família que conhecia eram sua mãe e seu pai, em sua vida toda nunca havia feito amigas com quem pudesse contar, além de traída e abandonada agora se via sozinha. Mesmo assim reuniu coragem e chegou a preparar uma velha mala de papelão com algumas mudas de roupa, infelizmente Jorge chegou nessa mesma hora e o que era ruim piorou, ela estava certa, ele não chegou a pensar duas vezes... Foi a primeira de uma série de surras que começaram e se tornar freqüentes, por qualquer motivo, desde o feijão salgado (às vezes de propósito, era verdade) até a roupa mal passada, passando pela sua incapacidade de conseguir fazer seu dever de marido, coisa que na cabeça dele só podia ser por culpa da esposa. E assim Zulmira foi levando sua vida.

A chegada do pequeno Antônio deu um novo alento a sua vida, seu marido não a procurava por causa do resguardo, e ela pode colocar a cabeça pra funcionar, de certa forma não era tão ruim assim , pensava, trocou quatro irmãos por um filho, e como esse era o SEU filho, tomaria conta dele com prazer.
Infelizmente as coisas não permaneceram desse jeito.
Jorge, como seu pai, exigia dela um filho por ano, e para seu tormento não secou como sua mãe, de modo que após 10 anos de casada eram 10 filhos para ela criar, e pra piorar tinha certeza que estava grávida novamente. Seu marido piorava ano após anos e, já fazia um tempo havia começado a bater nela de uma forma que começou a ser insuportável, parte porque seu instrumento não funcionava mais de jeito nenhum, e ele agora tinha absoluta certeza de que a culpa era dela, e parte por que as coisas não iam tão bem financeiramente como antes, graças à chegada de uma outra padaria na cidade, finalmente anos de falta de concorrência haviam chegado ao fim e Jorge se mostrou incapaz de competir em pé de igualdade, de modo que perdia clientes mês após mês. E isso tudo era descontado em Zulmira todas as noites. Mas isso ia acabar de uma forma ou de outra, foi com decisão que ela foi, nessa tarde chuvosa, ao seu guarda roupa e abriu o presente de casamento que sua mãe lhe dera. A colcha, sua mãe lhe dissera, estava na família há muitos anos e era passada de mãe pra filha, cada dona havia bordado uma parte e essa era a vez de Zulmira, naquela tarde ela começou seu trabalho...

Poucas pessoas compareçam ao enterro de Jorge, ele não possuía outros familiares e de amigos haviam muito poucos, mas o comentário era geral, morrer com um raio na cabeça era muito azar. Felizmente, como para compensar as humilhações, Zulmira o havia convencido a fazer um seguro de vida e isso haveria de ajudar em sua nova vida de viúva. Pobre Zulmira, haveriam de dizer os vizinhos, perder um pai num ano e o marido em outro era triste... Se eles soubessem que pai e marido eles eram... O que importava pra ela agora era sua nova vida, estava na casa dos trinta e com muitos filhos, é verdade, mas agora poderia começar a viver e talvez voltar a estudar, porque não? Poderia vender a loja e acrescentar esse dinheiro a sua renda, enfim, muita coisa a ser feita e decidida, agora estava só, seus dois maiores problemas haviam sido resolvidos.
Após chegar do enterro a primeira coisa que Zulmira fez foi guardar novamente a colcha, Ela a havia emprestado para sua mãe no ano anterior. E lá estava o bordado de sua mãe, um homem caído ao lado de uma escada, teve inveja da habilidade dela, nunca havia aprendido a bordar direito e só conseguiu fazer um bordado fácil, um homem caído com um raio, era um bordado quase infantil, mas dera certo, e havia servido ao seu propósito. Antes de guardá-la começou a observar a colcha com maiores detalhes, lá estavam dezenas de bordados, um homem boiando em um rio, outro caindo de um cavalo... É, as mulheres de sua família haviam sido muito infelizes, pensou sem conter um sorriso de alívio. Estava grávida de novo e dessa vez haveria de ser uma menina, que ela amaria e ensinaria a bordar e, quando chegasse à hora, daria sua colcha como presente de casamento para ela. E nesse dia teriam a mesma conversa que ela teve com sua mãe, num dia de domingo, há muitas primaveras atrás.



FIM
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21 de mar de 2007

A COLCHA DA FAMÍLIA - CONTO



A COLCHA DA FAMÍLIA

Foi naquela tarde que Zulmira, finalmente, tomou sua decisão. Decidiu por fim a humilhações e surras que seu marido lhe infligira durante os últimos anos de seu casamento.
Zulmira havia se casado nova, como era costume na região em que morou quando jovem. Mais velha de cinco filhos de uma família cujo pai era comerciante, não teve tempo para si. Parecia que havia nascido para ser ama dos menores, seu pai havia tomado a decisão de levar ao pé da letra a ordem bíblica de “ide e procriai”, de certa forma, percebeu mais tarde, foi um alívio sua mãe ter “secado”, às vezes imaginava quantos irmãos haveria de tomar conta se não fosse por isso. Infelizmente esse fato não foi bom para todos. Sua mãe começou a ser humilhada pelo seu pai. Quando bêbado era comum ele tocar no assunto, “mulher inútil” e “imprestável” eram algumas das qualidades imputadas à sua pobre mãe, no começo esses comentários não afetavam Zulmira (ela era pequena e, com essa idade, palavras são palavras), mas com o tempo, e o conhecimento do que essas palavras queriam dizer, elas a foram chateando. Mas fazer o que? Não era pra isso que as mulheres serviam? Seus irmãos não davam trégua, se eles se machucassem (os machos da família eram traquinas demais e isso acontecia seguidamente) ela era punida e quando, por qualquer motivo (maldade talvez), eles faziam alguma reclamação para seu digníssimo pai, ela acabava apanhando (o acontecido sendo verdadeiro ou não), por isso, no início, sentiu muito ódio, mas foi se acostumando. Ódio virou raiva, raiva virou rancor, rancor virou indiferença. Chegou a odiar sua mãe por tê-la colocado nessa situação ao concebê-la, e foi com dificuldade que se acostumou e agüentou firmemente por 19 anos.

Foi numa primavera que Jorge começou a freqüentar sua casa e a levar presentes para seu pai, e Zulmira só veio tomar conta da situação depois. Falando a verdade ela só percebeu do que se tratava quando seu pai entrou no seu quarto e pediu, de forma seca antes de se virar e voltar para a sala, para que ela colocasse o melhor vestido. Sua mãe, que vinha logo atrás com lágrimas nos olhos, dirigiu-se ao guarda roupa e pegou o vestido da missa.
– Minha Filha! - disse sua mãe, sem completar a frase, enquanto esticava o vestido em cima da cama.
À medida que o vestido ia sendo esticado, e desamarrotado, Zulmira começou a sentir receio. – O que está acontecendo? - perguntou para sua mãe, sem perceber que caiam lágrimas de seus olhos também. – Pra que tudo isso?
Foi olhando para o chão que sua mãe respondeu:
– Minha filhinha! Seu Jorge pediu você em casamento ao seu pai... - enquanto falava os olhos iam sendo erguidos de encontro aos de Zulmira. Naquela tarde de domingo, mãe e filha foram amigas e como cúmplices choraram pelo destino que de certa forma a deixavam realmente mais amigas que mãe e filha. Naquela tarde sua mãe lhe explicou o que era ser mulher e lhe contou o que lhe reservava o futuro, e foi naquela tarde que Zulmira descobriu (bem lá dentro, no seu íntimo) que seria mais uma mulher infeliz.

O casório foi providenciado rápido, em seis meses Zulmira já era esposa e dona de casa, seu primeiro filho estava a caminho, este providenciado numa das raras vezes que seu marido a havia tomado sóbrio. Agradecia a Deus o fato de Jorge se interessar muito mais pelas meninas do Salão de Dona Noemi do que por ela. Seu marido era sujo, bebia muito e ela tinha certeza de que se ele fosse provocado bateria nela sem pensar duas vezes, enfim, era tudo o que ela não desejava. Sentia-se traída e abandonada, percebeu que a sua vida não mudaria quando, no mês anterior, havia ido falar com seu pai sobre a sua situação, mas não adiantou muito, ele lhe disse que, uma vez casada, seu marido sabia o que era bom pra ela e afinal, disse ele, onde ela iria conseguir melhor marido do que ele? Após essa conversa ela até pensou em fugir, mas para onde? A única família que conhecia eram sua mãe e seu pai, em sua vida toda nunca havia feito amigas com quem pudesse contar, além de traída e abandonada agora se via sozinha. Mesmo assim reuniu coragem e chegou a preparar uma velha mala de papelão com algumas mudas de roupa, infelizmente Jorge chegou nessa mesma hora e o que era ruim piorou, ela estava certa, ele não chegou a pensar duas vezes... Foi a primeira de uma série de surras que começaram e se tornar freqüentes, por qualquer motivo, desde o feijão salgado (às vezes de propósito, era verdade) até a roupa mal passada, passando pela sua incapacidade de conseguir fazer seu dever de marido, coisa que na cabeça dele só podia ser por culpa da esposa. E assim Zulmira foi levando sua vida.

A chegada do pequeno Antônio deu um novo alento a sua vida, seu marido não a procurava por causa do resguardo, e ela pode colocar a cabeça pra funcionar, de certa forma não era tão ruim assim , pensava, trocou quatro irmãos por um filho, e como esse era o SEU filho, tomaria conta dele com prazer.
Infelizmente as coisas não permaneceram desse jeito.
Jorge, como seu pai, exigia dela um filho por ano, e para seu tormento não secou como sua mãe, de modo que após 10 anos de casada eram 10 filhos para ela criar, e pra piorar tinha certeza que estava grávida novamente. Seu marido piorava ano após anos e, já fazia um tempo havia começado a bater nela de uma forma que começou a ser insuportável, parte porque seu instrumento não funcionava mais de jeito nenhum, e ele agora tinha absoluta certeza de que a culpa era dela, e parte por que as coisas não iam tão bem financeiramente como antes, graças à chegada de uma outra padaria na cidade, finalmente anos de falta de concorrência haviam chegado ao fim e Jorge se mostrou incapaz de competir em pé de igualdade, de modo que perdia clientes mês após mês. E isso tudo era descontado em Zulmira todas as noites. Mas isso ia acabar de uma forma ou de outra, foi com decisão que ela foi, nessa tarde chuvosa, ao seu guarda roupa e abriu o presente de casamento que sua mãe lhe dera. A colcha, sua mãe lhe dissera, estava na família há muitos anos e era passada de mãe pra filha, cada dona havia bordado uma parte e essa era a vez de Zulmira, naquela tarde ela começou seu trabalho...

Poucas pessoas compareçam ao enterro de Jorge, ele não possuía outros familiares e de amigos haviam muito poucos, mas o comentário era geral, morrer com um raio na cabeça era muito azar. Felizmente, como para compensar as humilhações, Zulmira o havia convencido a fazer um seguro de vida e isso haveria de ajudar em sua nova vida de viúva. Pobre Zulmira, haveriam de dizer os vizinhos, perder um pai num ano e o marido em outro era triste... Se eles soubessem que pai e marido eles eram... O que importava pra ela agora era sua nova vida, estava na casa dos trinta e com muitos filhos, é verdade, mas agora poderia começar a viver e talvez voltar a estudar, porque não? Poderia vender a loja e acrescentar esse dinheiro a sua renda, enfim, muita coisa a ser feita e decidida, agora estava só, seus dois maiores problemas haviam sido resolvidos.
Após chegar do enterro a primeira coisa que Zulmira fez foi guardar novamente a colcha, Ela a havia emprestado para sua mãe no ano anterior. E lá estava o bordado de sua mãe, um homem caído ao lado de uma escada, teve inveja da habilidade dela, nunca havia aprendido a bordar direito e só conseguiu fazer um bordado fácil, um homem caído com um raio, era um bordado quase infantil, mas dera certo, e havia servido ao seu propósito. Antes de guardá-la começou a observar a colcha com maiores detalhes, lá estavam dezenas de bordados, um homem boiando em um rio, outro caindo de um cavalo... É, as mulheres de sua família haviam sido muito infelizes, pensou sem conter um sorriso de alívio. Estava grávida de novo e dessa vez haveria de ser uma menina, que ela amaria e ensinaria a bordar e, quando chegasse à hora, daria sua colcha como presente de casamento para ela. E nesse dia teriam a mesma conversa que ela teve com sua mãe, num dia de domingo, há muitas primaveras atrás.



FIM
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