24 de mar de 2007

BACURAU - CONTO



BACURAU

(Obs: glossário no final do texto)


- Garçom, trás a saideira. – Quem fez o pedido foi Luís, ele estava no bar com Pedro e Gustavo. Os três estavam comemorando a promoção deste último. Eles trabalhavam num banco, departamento de compensação, como sempre frisavam, entravam no trabalho às 16:00h e saiam às 22:00 de segunda à sexta-feira. Era sexta e pela primeira vez desde que trabalhavam juntos resolveram passar a madrugada bebendo.

- De todas as histórias que vocês contaram nenhuma chega perto do da que eu vou contar agora. – Gustavo falara, meio que mole.

- Que nada, você quer é segurar a gente mais tempo aqui. Já são três e meia, minha mulher vai me matar. – Foi a vez de Pedro se pronunciar, a euforia pelo sucesso do amigo havia passado e agora se lembrara que não tinha avisado a esposa que ia chegar tarde. Foi o gancho que Luís precisava.

- Olha... Dominadoooo! Agora é que não vamos mesmo, parece que essa vai ser a primeira saideira. – Luís falou, mais alto que o normal, devido a bebida.

- Bem, o que vou contar agora não sai daqui. – Disse Gustavo, ignorando o último comentário feito. – Eu fico arrepiado só de lembrar.

- Não enrola e conta logo. – Cortou Pedro já olhando para o relógio.

- Tá bom... Vocês sabem que eu estou no banco há mais tempo e sou o único de nós que bebe todos as sextas. – A cerveja chegou e todos encheram seus copos, Gustavo bebeu quase meio copo e continuou. – Bem, isso aconteceu há uns 10 anos atrás. Numa sexta-feira, assim como hoje, eu fiquei bebendo com meus camaradas do banco. Vocês não conhecem nenhum deles. Todos já foram demitidos. Só eu fiquei. - Pegou o copo, bebeu o resto e encheu o copo novamente.

- Naquela noite eu bebi pra caramba, aqui do lado tinha um caldinho* que era uma delícia e bebi quase dois quartinhos* com não sei quantas cervejas. Quando deu umas 4 horas eu resolvi ir pra casa, paguei minha parte da conta e fui pro ponto de ônibus pegar o bacurau*.

- Eu pegava meu ônibus atrás dos correios e apesar de nunca ter pego ele durante a madrugada eu sabia que passava uma vez por hora naquele horário e foi ai que aconteceu. – Deu uma pausa e deu outro gole.

- Não enrola e conta logo. – Falou Pedro, pela primeira vez parecendo estar grogue.

- Que nada, você está é com medo de apanhar. – Brincou Luís dando um amistoso tapa no amigo.

- Parem seus tabacudos*, calem a boca e escutem. – Foi a vez de Gustavo brincar. – Quanto mais vocês brincarem mais vai demorar pra acabar a história e aumenta a chance do Pedroca apanhar.- Completou rindo alto.

- Continuando. Eu fui pro ponto de ônibus e fiquei esperando. Depois de uns 15 minutos ele apareceu. Lembro como se fosse hoje, Centro/Casa Amarela. Eu Morava lá. No mesmo bairro que Luís mora hoje. Dei sinal e ele parou. Vocês lembram que antigamente nós entravamos pela porta traseira e descíamos pela frente. Quando eu entrei percebi que tinham poucos passageiros então sentei atrás e resolvi deitar no banco. Como desceria no terminal poderia ir dormindo até lá. Foi quando aconteceu. – Deu uma pausa e outro gole.

- Quando o ônibus parou num ponto eu senti um perfume de mulher muito forte, resolvi levantar e olhar de quem era. Eu não perdia nenhuma calcinha na época. Era o perfume de uma loira. Linda. Pelo menos por trás. Tinha uma bunda. Ela pagou a passagem e passou pela catraca. Decidi então passar, sentar ao lado dela e jogar um charme. Na hora em que fui girar a catraca e pagar a passagem ela travou. Mesmo fazendo força para passar ela simplesmente não girava. Então olhei pro cobrador pela primeira vez.

- Porra, conta logo esta história. Você pulou a catraca, sentou do lado da loira e foi pro motel com ela. – Cortou novamente Pedro, sua voz parecia ansiosa.

- Já estou acabando, calma. Dominadoooo! – Completou Gustavo rindo.

- Quando eu olhei para o cobrador ele estava dormindo. Então eu o acordei e falei que a catraca não queria rodar. “Como assim?”, perguntou ele. Então eu repeti. De repente notei que os poucos passageiros do ônibus olhavam para mim. Dei uma olhada neles e então percebi. Todos estavam ensangüentados e feridos. Inclusive a loira. Ela estava com uma mancha de sangue que escorria pela parte da frente do vestido. Daí eu perguntei que merda era aquela. Lembrem-se que eu estava bêbado. Hoje só de lembrar eu fico todo arrepiado, se eu estivesse sóbrio teria pulado pela janela do ônibus. Aqueles passageiros pareciam os atores da Noite do Terror do Mirabilândia*. – Gustavo fez outra pausa e notou que os outros dois haviam finalmente se interessado na sua história. Bebeu o resto do copo e completou. – Sabem o que o cobrador me disse? Ele me falou que a catraca não girava porque eu estava vivo. Gritou para o motorista numa voz que eu nunca mais me esqueci, “Tem um vivo aqui.” E fez uma ameaça de se levantar e me pegar. Gente, a cachaça passou na hora. Corri pra janela e aproveitei que o ônibus havia parado e pulei por ela. Percebi que estava no Derby*. Não tive dúvidas, corri pro meio do parque sem olhar para trás. Para falar a verdade eu corri até minha casa. Cheguei lá em uma hora. Estava tão cansado que dormi na sala. Nunca contei essa história pra ninguém.

- Claro que não. Que história doida. – Pedro resolveu desistir de implicar e começara a rir. – Que papo feio, Como é que é? Ônibus fantasma? Hahaha. Terminal Cemitério de Casa Amarela? Dá um tempo.

- Podes crer. Que merda de história. Depois dessa quem vai embora sou eu. – Era a vez de Luís falar. - São umas 4 horas, paga a conta que eu tenho que pegar o bacurau, o de verdade, não o “fantasma”. Hehehe – Completou.

- Ta bom, mas antes de entrar no ônibus certifique-se de que é mesmo o bacurau. E veja se a catraca gira, se não girar desça imediatamente. – falou Gustavo num tom normal e sério. Luís gelou e estranhou a fato de ficar arrepiado.

Pediram a última saideira e beberam conversando sobre amenidades. Como Gustavo havia sido o promovido acabou pagando a conta, quase uma grade* mais as bistecas assadas. Acabou morrendo nuns 80 reais. Pedro acabou o convencendo a levá-lo para casa de carro, já Luís foi sozinho para trás dos correios pegar o ônibus. Esperou pouco, alguns minutos depois ele apareceu, Centro\Casa Amarela. Mas algo estava errado, ele não sabia por que, mas estava arrepiado novamente. À medida que o ônibus estava se aproximando e ele ficava cada vez mais temeroso. O ônibus acabou passando e ele não deu sinal.

- Porra, eu vou é de táxi, chego mais rápido em casa. – Falou em voz alta para si como se no íntimo quisesse acreditar que aquele fosse o real motivo, atravessou a rua e se dirigiu ao lugar que os taxistas faziam ponto de madrugada.

FIM

Bacurau – ônibus que roda pela cidade entre meia noite e seis horas da manhã

Caldinho – um tipo de caldo que parece uma sopa, ótimo acompanhamento para aguardente (hehe)

Quartinho – um quarto de garrafa de aguardente (um copo americano cheio)

Grade – 24 garrafas de cerveja

Tabacudo – babaca

Mirabilândia – um parque de diversões grande, em Olinda, PE

Derby – uma praça de bom tamanho que fica próximo ao centro do Recife, PE

Postar um comentário

24 de mar de 2007

BACURAU - CONTO



BACURAU

(Obs: glossário no final do texto)


- Garçom, trás a saideira. – Quem fez o pedido foi Luís, ele estava no bar com Pedro e Gustavo. Os três estavam comemorando a promoção deste último. Eles trabalhavam num banco, departamento de compensação, como sempre frisavam, entravam no trabalho às 16:00h e saiam às 22:00 de segunda à sexta-feira. Era sexta e pela primeira vez desde que trabalhavam juntos resolveram passar a madrugada bebendo.

- De todas as histórias que vocês contaram nenhuma chega perto do da que eu vou contar agora. – Gustavo falara, meio que mole.

- Que nada, você quer é segurar a gente mais tempo aqui. Já são três e meia, minha mulher vai me matar. – Foi a vez de Pedro se pronunciar, a euforia pelo sucesso do amigo havia passado e agora se lembrara que não tinha avisado a esposa que ia chegar tarde. Foi o gancho que Luís precisava.

- Olha... Dominadoooo! Agora é que não vamos mesmo, parece que essa vai ser a primeira saideira. – Luís falou, mais alto que o normal, devido a bebida.

- Bem, o que vou contar agora não sai daqui. – Disse Gustavo, ignorando o último comentário feito. – Eu fico arrepiado só de lembrar.

- Não enrola e conta logo. – Cortou Pedro já olhando para o relógio.

- Tá bom... Vocês sabem que eu estou no banco há mais tempo e sou o único de nós que bebe todos as sextas. – A cerveja chegou e todos encheram seus copos, Gustavo bebeu quase meio copo e continuou. – Bem, isso aconteceu há uns 10 anos atrás. Numa sexta-feira, assim como hoje, eu fiquei bebendo com meus camaradas do banco. Vocês não conhecem nenhum deles. Todos já foram demitidos. Só eu fiquei. - Pegou o copo, bebeu o resto e encheu o copo novamente.

- Naquela noite eu bebi pra caramba, aqui do lado tinha um caldinho* que era uma delícia e bebi quase dois quartinhos* com não sei quantas cervejas. Quando deu umas 4 horas eu resolvi ir pra casa, paguei minha parte da conta e fui pro ponto de ônibus pegar o bacurau*.

- Eu pegava meu ônibus atrás dos correios e apesar de nunca ter pego ele durante a madrugada eu sabia que passava uma vez por hora naquele horário e foi ai que aconteceu. – Deu uma pausa e deu outro gole.

- Não enrola e conta logo. – Falou Pedro, pela primeira vez parecendo estar grogue.

- Que nada, você está é com medo de apanhar. – Brincou Luís dando um amistoso tapa no amigo.

- Parem seus tabacudos*, calem a boca e escutem. – Foi a vez de Gustavo brincar. – Quanto mais vocês brincarem mais vai demorar pra acabar a história e aumenta a chance do Pedroca apanhar.- Completou rindo alto.

- Continuando. Eu fui pro ponto de ônibus e fiquei esperando. Depois de uns 15 minutos ele apareceu. Lembro como se fosse hoje, Centro/Casa Amarela. Eu Morava lá. No mesmo bairro que Luís mora hoje. Dei sinal e ele parou. Vocês lembram que antigamente nós entravamos pela porta traseira e descíamos pela frente. Quando eu entrei percebi que tinham poucos passageiros então sentei atrás e resolvi deitar no banco. Como desceria no terminal poderia ir dormindo até lá. Foi quando aconteceu. – Deu uma pausa e outro gole.

- Quando o ônibus parou num ponto eu senti um perfume de mulher muito forte, resolvi levantar e olhar de quem era. Eu não perdia nenhuma calcinha na época. Era o perfume de uma loira. Linda. Pelo menos por trás. Tinha uma bunda. Ela pagou a passagem e passou pela catraca. Decidi então passar, sentar ao lado dela e jogar um charme. Na hora em que fui girar a catraca e pagar a passagem ela travou. Mesmo fazendo força para passar ela simplesmente não girava. Então olhei pro cobrador pela primeira vez.

- Porra, conta logo esta história. Você pulou a catraca, sentou do lado da loira e foi pro motel com ela. – Cortou novamente Pedro, sua voz parecia ansiosa.

- Já estou acabando, calma. Dominadoooo! – Completou Gustavo rindo.

- Quando eu olhei para o cobrador ele estava dormindo. Então eu o acordei e falei que a catraca não queria rodar. “Como assim?”, perguntou ele. Então eu repeti. De repente notei que os poucos passageiros do ônibus olhavam para mim. Dei uma olhada neles e então percebi. Todos estavam ensangüentados e feridos. Inclusive a loira. Ela estava com uma mancha de sangue que escorria pela parte da frente do vestido. Daí eu perguntei que merda era aquela. Lembrem-se que eu estava bêbado. Hoje só de lembrar eu fico todo arrepiado, se eu estivesse sóbrio teria pulado pela janela do ônibus. Aqueles passageiros pareciam os atores da Noite do Terror do Mirabilândia*. – Gustavo fez outra pausa e notou que os outros dois haviam finalmente se interessado na sua história. Bebeu o resto do copo e completou. – Sabem o que o cobrador me disse? Ele me falou que a catraca não girava porque eu estava vivo. Gritou para o motorista numa voz que eu nunca mais me esqueci, “Tem um vivo aqui.” E fez uma ameaça de se levantar e me pegar. Gente, a cachaça passou na hora. Corri pra janela e aproveitei que o ônibus havia parado e pulei por ela. Percebi que estava no Derby*. Não tive dúvidas, corri pro meio do parque sem olhar para trás. Para falar a verdade eu corri até minha casa. Cheguei lá em uma hora. Estava tão cansado que dormi na sala. Nunca contei essa história pra ninguém.

- Claro que não. Que história doida. – Pedro resolveu desistir de implicar e começara a rir. – Que papo feio, Como é que é? Ônibus fantasma? Hahaha. Terminal Cemitério de Casa Amarela? Dá um tempo.

- Podes crer. Que merda de história. Depois dessa quem vai embora sou eu. – Era a vez de Luís falar. - São umas 4 horas, paga a conta que eu tenho que pegar o bacurau, o de verdade, não o “fantasma”. Hehehe – Completou.

- Ta bom, mas antes de entrar no ônibus certifique-se de que é mesmo o bacurau. E veja se a catraca gira, se não girar desça imediatamente. – falou Gustavo num tom normal e sério. Luís gelou e estranhou a fato de ficar arrepiado.

Pediram a última saideira e beberam conversando sobre amenidades. Como Gustavo havia sido o promovido acabou pagando a conta, quase uma grade* mais as bistecas assadas. Acabou morrendo nuns 80 reais. Pedro acabou o convencendo a levá-lo para casa de carro, já Luís foi sozinho para trás dos correios pegar o ônibus. Esperou pouco, alguns minutos depois ele apareceu, Centro\Casa Amarela. Mas algo estava errado, ele não sabia por que, mas estava arrepiado novamente. À medida que o ônibus estava se aproximando e ele ficava cada vez mais temeroso. O ônibus acabou passando e ele não deu sinal.

- Porra, eu vou é de táxi, chego mais rápido em casa. – Falou em voz alta para si como se no íntimo quisesse acreditar que aquele fosse o real motivo, atravessou a rua e se dirigiu ao lugar que os taxistas faziam ponto de madrugada.

FIM

Bacurau – ônibus que roda pela cidade entre meia noite e seis horas da manhã

Caldinho – um tipo de caldo que parece uma sopa, ótimo acompanhamento para aguardente (hehe)

Quartinho – um quarto de garrafa de aguardente (um copo americano cheio)

Grade – 24 garrafas de cerveja

Tabacudo – babaca

Mirabilândia – um parque de diversões grande, em Olinda, PE

Derby – uma praça de bom tamanho que fica próximo ao centro do Recife, PE

Postar um comentário